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PARA UMA METODOLOGIA DE ENSINO DE PORTUGUÊS
COM O ESTATUTO DE LÍNGUA OFICIAL MAS ESTRANGEIRA.

(Para turmas de alunos de Ensino Básico da Guiné-Bissau, alfabetizados em Crioulo)

(Proposta de Fernanda Dámaso e Lino Bicarique que tinha ficado inacabada em Junho de 1987: 2ª revisão por Lino Bicari em Abril de 2002)


I. CONSIDERAÇÕES GERAIS

"O Crioulo Guineense, se for ignorado, torna-se inimigo do Português, mas pode tornar-se o melhor amigo desta língua, se for tomado em consideração na aprendizagem da mesma".

O programa de Português aqui proposto é especifico e exclusivo para alunos da Guiné-Bissau pelo facto de o Português ter um relacionamento linguístico especial com o Crioulo Guineense que, por sua vez, é uma língua da África Ocidental que todas as crianças guineenses aprendem a falar antes de aprenderem Português na escola.

Nenhuma criança da Guiné-Bissau tem Português como língua materna nem como língua de normal comunicação oral, todos falam Crioulo ou aprendem rapidamente a falar esta língua nos seus primeiros contactos fora do meio étnico de origem. A própria escola que pretende ensinar em Português desde a primeira classe, em poucos meses leva todos os alunos que só falam a língua étnica a falarem correntemente Crioulo.

O Crioulo, como língua de comunicação de maior difusão e de mais rápida expansão no País (55% de locutores em 1987 e 70% em 2001), deve ser actualmente considerada língua materna ou quase-materna da maioria das crianças da Guiné-Bissau: de facto, nos centros urbanos, ao longo das grandes vias de comunicação e também em muitas zonas rurais como, por exemplo, no Arquipélago Bijagô, o Crioulo é a principal língua de comunicação da população multiétnica. Por ter o Crioulo Guineense características de língua da África Ocidental é de fácil aprendizagem pelas populações, logo pelas crianças, desta zona do continente.

Ao mesmo tempo, o Crioulo, que teve a sua origem ligada ao Português, tem, com esta língua, relacionamentos fonéticos, morfológicos e sintácticos que devem ser considerados durante o desenvolvimento das unidades do programa.

Por tudo isso, o método de aprendizagem de Português para um guineense deve ser um método específico que deve apontar e explorar as divergências, e as convergências da língua do aluno (Crioulo) com as da língua que deve aprender (Português) e fazer evitar as interferências da primeira na utilização da segunda.

a) Os destinatários prioritários deste programa são as crianças guineenses que, após terem frequentado a 1ª fase do Ensino Básico (E.B.) em Crioulo, falam, lêem e escrevem esta língua nacional e devem iniciar a aprendizagem do Português. Alem de alfabetizados em língua crioula, esses alunos têm o perfil de finalistas da 1ª fase do E.B. isto é, adquiriram os conteúdos teóricos, as capacidades e os comportamentos previstos nos objectivos dos currículos nacionais dessa 1ª fase.

Nota : O desenvolvimento deste programa pode, para esses alunos, iniciar no 3º trimestre do 2º ano ou no início da 2ª fase do E.B., neste caso dedica-se um tempo lectivo diário a este mesmo programa e três tempos para o desenvolvimento dos conteúdos dos curricula em língua crioula de maneira que possam chegar ao fim da 2ª fase do E.B. (4ª classe) com boa assimilação dos conteúdos e também com boa oralidade básica, escrita e leitura da língua portuguesa sem interferências do Crioulo.

b) Também os adultos que foram alfabetizados em Crioulo têm aqui, feitas algumas adaptações, uma metodologia específica para aprenderem Português.

c) A metodologia deste programa pode ser adaptada ao ensino da língua portuguesa também para as crianças que são leccionadas em Português desde a 1ª classe.

Para a aplicação deste método o professor deve, antes de mais, estudar a língua crioula quer na sua origem e formação, quer na sua fonética, escrita, morfologia e sintaxe e exercitar-se na prática; na aplicação do método deve notar todas as diferenças fonéticas, gráficas, morfológicas e sintácticas do Português em relação ao Crioulo e estar sempre pronto a emendar os alunos quando notar interferências do Crioulo no Português quer falado quer escrito por eles: as fichas orientam neste sentido.

Motivações histórico-políticas da opção do Português como língua oficial:

• Palavras de Amilcar Cabral (seminário de quadros de 1969 – Conakry) .....
• Decisão política do Governo da Guiné-Bissau.
• Herança histórico-cultural: o Português fica na herança cultural guineense, de facto, esta língua na Guiné-Bissau não foi só meio de comunicação, mas também veículo de ideias, de concepções da vida, do espaço, do tempo, da natureza e do transcendente que da cultura portuguesa passaram, em maior ou menor medida, com efeitos positivos e negativos, para a cultura dos povos da Guiné-Bissau.
• Necessidade prática de utilização de uma língua escrita, da língua da função pública, de consulta documental, de estudo científico, e de comunicação internacional.
• O Português é a língua comum aos 8 países da CPLP.
• O Português é uma das línguas internacionais.


II. OBJECTIVOS GERAIS DA APRENDIZAGEM DO PORTUGUÊS NO ENSINO BÁSICO

Levar os alunos a:

a) Saber comunicar oralmente (e por escrito) em português através da aquisição e da prática de uma fonética, de um léxico, de formas morfológicas e sintácticas elementares, essenciais, substancialmente correspondentes às do Português standard e por isso compreensível por todos os lusófonos.

b) Compreender e reconhecer que o estudo da língua portuguesa pelos guineenses é recomendada pela realidade histórica, cultural e política da Guiné-Bissau.

c) Compreender e utilizar o Português nas relações públicas e em várias situações em que o cidadão guineense alfabetizado se encontrará : assistir a reuniões e palestras, intervenções e comissões; ler e compreender a literatura escrita do país (documentos históricos, administrativos, livros, jornais) que é preponderantemente em Português e documentos necessários e úteis para todos os cidadãos, ouvir os programas de Rádio e TV em língua portuguesas.

d) Alcançar o nível linguístico suficiente para frequentar o Ensino Secundário em Português.

e) Utilizar o Português em contactos internacionais sobretudo no âmbito dos países da CPLP.


Lino Bicari
Abril de 2002

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