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APONTAMENTOS PARA O USO DO BILINGUISMO NO PAEBB
(PROJECTO APOIO ENSINO BILINGUE BIJAGÓS)

A) O QUE SIGNIFICA ENSINO BILINGUE?

O ensino bilingue significa ter duas línguas como línguas de ensino e de aprendizagem. No nosso caso concreto as duas línguas são o Crioulo Guineense (sigla L1) e o Português (sigla L2).

As L1 e L2 têm a mesma importância, por isso merecem uma atenção didáctica adequada, cada uma no seu lugar, com o seu grau de importância e com as dificuldades próprias de aprendizagem:


“Muitas pesquisas feitas em ambientes socio-culturais diferentes demonstram que as pessoas bilingues possuem mais habilidades do que os monolingues, no que diz respeito à flexibilidade de apreendimento, à criatividade e ao pensamento multi-direccional." - Kessler & Quinn, Positive effects of bilinguism on science problem-solving


1. Cada uma no seu lugar

A L1 é a língua materna para alguns e para outros é a língua que eles entendem ou podem aprender com rapidez durante a 1ª classe.

É a língua de aprendizagem da leitura e escrita durante o primeiro ciclo do ensino básico (1ª-2ª classe).


“Uma vez que os estudantes aprenderam bem a leitura e a estratégia de obter significados/sentidos com a escrita, esta habilidade é um suporte para a L2." - E. Thonis


“Os estudantes que aprenderam a ler e a escrever na L1, fazem progressos mais rápidos na leitura da L2 dos que não sabem ler e escrever na L1. Isso verifica-se também quando as duas línguas não utilizam o mesmo sistema gráfico." - C. Ovando


A L2 é, até ao presente, a única (!) língua oficial da Guiné-Bissau, é língua segunda privilegiada, mas quase estrangeira para a maioria dos nossos alunos.

Nas nossas escola é ensinada oralmente no início, a partir da segunda classe, e como leitura e escrita a partir da 3ª classe.

Com as 4ª-5ª-6ª classes as L1-L2 são tratadas com a mesma importância como línguas de ensino (até atingir o ideal de 50% de tempo de aulas por cada uma, para o ensino de conteúdos nas disciplinas de Matemática, Ciências Integradas e outras).

Para a disciplina específica de ensino de língua, o Crioulo Guineense começa nessa altura a ter menos aulas do que o Português, porque o Crioulo está já estruturado na mente dos alunos, enquanto que o Português começa a ser apreendido e precisa de mais tempos de aula.

O estudo do Crioulo deve continuar a aprendizagem como gramática e como literatura:


“Para garantir sucesso na aprendizagem da L2, o aluno deve desenvolver o conhecimento oral e escrito da língua materna, pelos menos durante a escola materna." - Ovando


“Se L1 é esquecida na primeira idade das pessoas. acontece uma perda de conhecimentos. Aquele que perde L1 tem menos resultados nos conhecimentos académicos que o que adquire L2 e mantém L1." – Ovando


2. Com o seu grau de importância

É claro que a L1 é a língua da identidade do aluno, que ele usa para comunicar com os outros, para expressar os sentidos, as emoções, os sons, os odores, e para nomear coisas do mundo exterior e para estruturar conceitos.

A L2, ao contrário, é uma língua que se desenvolveu com outra cultura, mas que tem a possibilidade de abrir aos alunos o acesso ao estudo de disciplinas específicas, cujos textos são escritos em Português.

Por meio da L2 o aluno é habilitado a conhecer um mundo mais amplo, o mundo da internacionalidade, da cultura global, dos jornais, da rádio e da Internet.


3. Com as dificuldades próprias de aprendizagem

O aluno tem aprendido a L1 no dia a dia, e os modelos gramaticais desta língua são consolidados e sempre presentes, como imagem e exemplo, quando ele quer aprender uma segunda língua.

A L2 é uma língua que, muito provavelmente, o aluno está a ouvir pela primeira vez durante as aulas e que tem poucas oportunidades de utilizá-la fora das aulas. Por isso o seu apreendimento é um processo longo, paciente, às vezes cansativo, durante todos os anos de escolaridade.

Somente quando o aluno tiver contacto com uma comunidade de falantes de Português este apreendimento começará a ser também rápido!

Para isso o Professor de Língua Portuguesa deve ter uma habilidade específica para o ensino de Português como L2 (que é diferente do ensino de Português como L1: de facto o aluno de seis anos chega a escola com mais de 10.000 vocábulos e muitos modelos gramaticais da sua L1!), deve criar um ambiente adapto na sala de aula e deve interagir com os alunos e ajudar os alunos a interagir entre si por meio de diálogos, de amostra de imagens e de desenhos, e de aprendizagem de vocábulos e frases simples).

O primeiro princípio do linguista Krashen diz:

“Para aprender melhor uma língua, o aluno deve receber conhecimentos linguísticos que ele entende e que são ligeiramente a um nível mais alto da sua capacidade de compreensão." - S. D. Krashen


B) DIDÁCTICA BILINGUE

Tendo em consideração a nossa breve experiência (seis anos) e sobretudo a competência dos estudiosos interessados ao bilinguismo, podemos formular algumas regras ou leis fundamentais que podem servir de orientação para a didáctica do ensino bilingue.


1. Regra da separação dos Códigos linguísticos

O Professor dever ter cuidado em utilizar ou a L1 ou a L2 em aulas separadas ou em tempos distintos da mesma aula.

Às vezes, especialmente nas primeiras classes, o Professor deve avisar previamente os alunos sobre a escolha da língua de ensino.

Quando o aluno responde a uma pergunta utilizando as duas línguas na mesma frase ou no mesmo período ou no mesmo discurso, o Professor intervém e ajuda a distinguir os dois códigos linguísticos para o aluno perceber as diferenças.

Esta regra não impede que o Professor, nalgumas ocasiões, apresente um “conceito" ou outro argumento com a L1 e depois continue as actividades com os alunos, utilizando a L2.

Na sala de aula deve ser desencorajado o hábito de utilizar o “método-tradução" de uma língua pata outra.


“Na sala de aula onde os alunos perdem o hábito das traduções de uma língua para outra, é mais fácil orientar os alunos para que comuniquem numa língua ou numa outra por tempos mais longos, o que favorece uma melhor aprendizagem das duas línguas." - C. J. Faltis


2. Regra da importância da L1

Do ponto de vista didáctico é errado proibir aos pais e aos alunos de comunicar com a L1. O Professor Jim Cummings em 1981 apresentou pesquisas que indicam a importância da L1 como instrumento para o desenvolvimento de conceitos que podem ser transferidos para a L2:


“Quando os pais contam histórias aos filhos utilizando a L1, os filhos continuarão a aprender várias formas e géneros literários." - J. Cummings


“Quando os pais e os filhos falam a língua que eles conhecem melhor, eles estão trabalhando ao máximo nível da sua habilidade cognitiva e estão aumentando esta habilidade de adquirir conhecimentos." - Ovando


“As conclusões das pesquisas sobre ensino-aprendizagem da L1 têm afirmado que este ensino-aprendizagem, no seu aspecto de literatura e de meio para o desenvolvimento da habilidade cognitiva, desenvolve um papel muito importante e crítico para o sucesso escolar na aprendizagem da L2." - Tinajero & Ada


Quanto mais rica será a experiência com a L1, tanto mais fácil será a aprendizagem da L2. Os alunos que já aprenderam a ler e escrever com a L1 devem continuar a ler e escrever com a L1, porque isso facilitará a leitura e a escrita na L2:


“Várias pesquisas têm demonstrado que os alunos não são capazes de aprender bem a L2 se o desenvolvimento dos conhecimentos é suspendido na L1." – V.P. Collier


O significado dos vocábulos é aprendido não somente através da língua, mas também através de gestos, de experiências, de desenhos, de apresentação de objectos, como acontece com o menino de 3-6 anos que absorve os vocábulos com o seus significados, através dos odores, dos sabores, das cores, dos contactos…

Por isso, dizer, por exemplo, a palavra “ mãe" (ou qualquer outra palavra) com a própria língua materna ou com uma língua outra não é a mesma coisa. A palavra “mãe" , dita com a L1, é mais rica em sentido e emoções.


3. Regra do ensino e aprendizagem da L2 através de todas as disciplinas

O Professor de Português deve ensinar a L2 não somente com as aulas específicas da disciplina de ensino linguístico, mas também através os conteúdos das outras disciplinas (como Matemática, Ciências Integradas e outras) utilizando a L2.

É claro que o Professor deve estar preparado para isso: ele deve ser consciente que os seus alunos têm conhecimentos limitados da L2.

Quando o Professor encontrar um vocábulo novo ou uma frase interessante, deve parar um bocado e passar ao ensino da L2, utilizando o método de frases lacunares, como já está bem demonstrado nos nossos dois manuais de ensino de Português para a 3ª e 4ª classe.

Eis um exemplo:

o macaco come a banana
o macaco come ?a
?b come a palha
     

etcetera…

Os alunos são convidados a preencher os quadrinhos vazios:

?a = a manga
?b = a vaca

A mesma metodologia pode ser usada para ensinar os adjectivos, as cores, os nomes de produtos alimentares, solvendo, por exemplo, um problema de matemática, etcetera.

A metodologia do ensino da língua utiliza a língua na sua totalidade de expressão (e não só a gramática): é preciso utilizar frases autênticas, até aceitar ortografia não correcta no início, preocupando-se mais com o sentido da frase e com o que o aluno já conhece.


“É preciso ensinar a língua por meio de temas que são de utilidade e de interesse aos alunos.
Depois dos anos 1980-90 o ensino das línguas é dado num contexto que tem sentido para os alunos, enquanto que nos anos anteriores a metodologia das línguas privilegiava o estudo da gramática (até 1950) ou o uso da língua, sem dar muita importância à qualidade dos temas."
- Ovando


Há factores sociais (importância dada à L1 e a L2) e factores afectivos (o clima na sala de aula) que influenciam positivamente a aprendizagem da L2.

O Professor deve saber que a L2 é aprendida com mais facilidade quando é ensinada num contexto interessante e concreto, capaz de atrair a atenção dos alunos.


“Para que haja na sala de aula um ambiente positivo para a aprendizagem, o Professor dever ter um plano, começando a despertar os conhecimentos anteriores dos alunos para guiá-los à descoberta de novos conhecimentos através da metodologia ‘resolução de problemas, ‘tarefas interactivas e sobretudo ‘interajuda na aprendizagem, para baixar o nível da ansiedade e criar auto estima entre os alunos." - Ovando


4. Regra do respeito da cultura dos alunos

O aluno não é uma tábua vazia e entra na escola com conhecimentos próprios, linguísticos e outros. A escola tem programas, o Professor nem sempre é da mesma etnia do aluno, às vezes é originário da cidade ou tem estudado vários anos na cidade.

Por isso há interacção entre dois mundos, o moderno do Professor e o tradicional da aldeia; o encontro inicia um processo de encontro de culturas e de transformação de mentalidades diferentes.

O Professor deve conhecer o termo cultura (que normalmente é o resultado de um processo longo de respostas de uma comunidade às condições ambientais, a fim de resolver problemas específicos de sobrevivência) e a diferença entre aculturação (é um processo “normal" de aceitação de alguns aspectos culturais de uma outra cultura, sem perder a própria identidade) e assimilação (é um processo “não normal" de aceitação dos aspectos de uma outra cultura, até perder a própria identidade).

Há valores e comportamentos que não são os mesmos para o Professor e o aluno: serve de exemplo o que tem acontecido a uma Professora da cidade que foi a trabalhar numa aldeia da Alaska. Ela trouxe para a sala de aula um coelhinho e queria que os alunos começassem a ter um comportamento carinhoso com o animal: ficou muito zangada ao ver os alunos reagirem de maneira contrária, para que o coelho, para eles, era uma fonte de comida e não um animal a ser acarinhado como um peluche.

Às vezes é necessário mudar a maneira de fazer perguntas ou de dar ordens, porque na aldeia ou em família os alunos são habituados a outra maneira de fazer perguntas ou de dar ordens.

Aconteceu comigo em Canhabaque, em 1979, quando tinha o hábito de pedir aos rapazes de fazer alguma coisa utilizando a expressão “ por favor". Muitas das vezes os rapazes ficavam parados, sem saber o que fazer.

Uma vez o Régulo Victor estava presente e disse-me: “Olha, aqui em Canhabaque, com os rapazes (alguém de idade inferior) não se utiliza “por favor", mas a ordem é dada de maneira directa como deve ser uma ordem, assim eles percebem logo que a ordem de um mais velho deve ser cumprida.


Nota: Como se aprende a língua materna

Ás vezes os pais pensam que uma língua se aprende facilmente com poucos anos de escola ou que uma língua segunda se aprende conforme a quantidade de aulas, mas não é assim:


“O que é importante na aprendizagem de uma língua são os anos de ligação com a L2 e não o número de horas por dia." - Ovando


Para perceber que a aprendizagem duma língua é um processo complexo e que o ensino também deve tomar em consideração essa complexidade, resumo o que Ovando Carlos refere no seu livro “Bilingual & ESL Classrooms":

- 0-5 anos: os meninos aprendem a língua oral (escutar e falar) com uma capacidade de 50% do total. Aprendem sons, vocabulário, gramática, semântica ou sentido das palavras e pragmática (como a língua é usada em vários contextos e com várias intenções);

- 5-12 anos: o menino continua a aprendizagem oral subconsciente da fonologia, da gramática, do vocabulário, da semântica, do discurso e da pragmática. Por meio da escola, da escrita e da leitura a língua desenvolve-se, até a adolescência, quando o desenvolvimento da língua atinge um nível complexo;

- depois dos 12 anos: há aspectos da aprendizagem da L1 que continuarão para toda a vida, como o desenvolvimento do vocabulário, a habilidade de escrever e a aprendizagem dos aspectos pragmáticos.


C) OS ERROS DE PORTUGUÊS MAIS FREQUENTES NOS FALANTES DE CRIOULO – GUINEENSE

Os Professores do PAEBB já receberam e estudaram as 33 fichas “Para uma metodologia do Ensino do Português com o estatuto de língua oficial, mas segunda", da autoria de Lino Bicari.

O que recomendamos aqui, no ensino do Português, é de prestar atenção e de fazer uma lista dos “erros" mais comuns de Português encontrados nos falantes de Crioulo Guineense (mas que se encontram também nos outros países africanos do Palop):

Nós chamamos estas situações com o nome de ‘erros’, mas muitas vezes são tentativas do aluno de formar a própria gramática:

“É preciso lembrar que os que aprendem L2 utilizam os conhecimentos da L1 para aprender a L2; alguns modelos gramaticais da L2 são comparados pelo aluno com os modelos gramaticais da própria língua materna."- Ovando

Eis alguns “erros":
1. Omissão do artigo;
2. Dificuldade na flexão de número (singular/plural) e género (masculino/feminino);
3. Falta de concordância entre sujeito e verbo;
4. Uso do demonstrativo;
5. Uso das preposições;
6. Coordenação de uma frase complexa;
7. Ordem das palavras (sujeito - verbo - complemento),
8. Sons diferentes: as vogais do Português são em número maior e o Crioulo têm algumas consoantes próprias, com dj, tc, n’;
9. Semântica: mesma palavra com significado diferente: de cor, cachorro...;
10. …

É claro que não há só lista de “erros", há também lista de “pontos de apoio entre as duas línguas", especialmente no campo da aprendizagem do vocabulário.

O léxico do Crioulo Guineense deriva do Português por 80% do seu total, e de grande ajuda para a compreensão de muitas palavras do Português que têm a mesma raiz.

O Professor deve guiar os alunos à aprendizagem das regras de “formação das palavras" (vede Gramática Básica da Língua Portuguesa, p. 17-18).

Luigi Scantamburlo

Bubaque 3 de Julho de 2007

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