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O ARTESENATO TRADICIONAL DOS BIJAGÓS


(tomado da "Etnologia dos Bijagós da Ilha de Bubaque" (1978),
escrito pelo pesquisador da antropologia, Luigi Scantamburlo)

 
 

O artesanato tradicional

Juntamente com os Nalús, os Bijagós são os melhores entalhadores da Guiné-Bissau. Todos eles parecem possuir uma aptidão inata para esta actividade, que requer uma formação longa e paciente sob a orientação do pai ou de outro familiar próximo. O artista bijagó, trabalhando com uma faca afiada, é capaz de transformar um bocado de madeira numa imagem perfeita de animal ou bailarino ou fazer um utensílio para a cozinha.

O trabalho de esculpir a madeira desenvolveu-se na ilha de Bubaque em três direcções:

a) A escultura religiosa
É ainda a actividade mais secreta e importante, e poucos artistas têm o conhecimento para realizá-la. As mascaras, os bancos e as estátuas que representam o seu espírito, Orébok, exigem conhecimentos não só a nível da qualidade da madeira que deve ser utilizada, mas também das cerimónias necessárias para cortá-la e do processo para esculpi-la. O artista isola se e submete se a cerimónias especiais de purificação.

b) A escultura de utensílios
Ainda se fazem o entalhe e a modelação de remos, pequenas canoas e diversos objectos para a cozinha, como os almofarizes e os pilões para o arroz e o chabéu, colheres grandes e pratos. Actualmente, a maior parte dos outros utensílios de cozinha são de metal ou cerâmica adquiridos no mercado europeu. Antigamente muitos desses objectos eram feitos de una qualidade de madeira macia da família das Dogbane. Os objectos de tagara ainda se usam para cozinhar nalgumas cerimónias religiosas importantes, como as da iniciação. Outros objectos talhados na madeira pelos artistas são os cachimbos com que a maioria dos homens e mulheres fuma e os brinquedos para as crianças.

c) A escultura para as turistas Os artistas bijagós de Bubaque têm obtido sucesso económico talhando objectos para troca ou venda aos turistas. A sua produção tem aumentado, com uma subida continua dos preços e uma baixa de qualidade artesanal. As peças mais vulgares são:

Os seres humanos. - Os mais comuns são os dançarinos e também as raparigas bijagós vestindo a tradicional saia de palha ou transportando um pote à cabeça, a mãe com o filho, o ancião sentado num banco, o jovem após as cerimónias de iniciação na floresta e reproduções de europeus, como o soldado e o administrador.

Os animais e as aves. - Os mais vulgares são o pelicano, as vacas, os hipopótamos, as aves domésticas e selvagens e também peixes mitológicos e o crocodilo.

Outras peças. - Incluem a reprodução de alguns objectos europeus que eles possam ter visto, tais como a motocicleta, o automóvel, a espingarda e também as famosas canoas de guerra dos Bijagós, com seis, oito ou doze remadores. Para o comércio com os turistas talham algumas das peças que utilizam nas suas cerimónias sagradas. Isto veio provocar uma grande mudança naquilo que era a arte tradicional bijagó, voltada para as cerimónias religiosas e necessidades quotidianas.

Os artistas, quando cortam a madeira, ainda se aproximam das árvores com um certo temor e reverência, oferecendo vinho ou aguardente e ovos ao espírito que habita na floresta.

Apesar de a madeira esculpida ser o artesanato mais comum em Bubaque, existem outras ocupações, como as pinturas murais e as cabaças gravadas. A cerâmica foi completamente substituída pelo metal ou objectos de cerâmica introduzidos pelo mercado europeu. A feitura dos cestos entrelaçados e das esteiras desenvolveu-se por causa da procura dos turistas. Particularmente bonitos são os sacos de viagem usados pelo chefe ou pelas mulheres mais velhas quando vão ás cerimónias sagradas. A cestaria e o fabrico das esteiras são mais conhecidos nas outras ilhas, onde as canas e outros materiais usados aparecem em maior quantidade.

A pintura e a gravação das cabaças, feitas geralmente com uma agulha ou faca, têm desenhos geométricos ou figuras representando cenas retiradas do quotidiano e da mitologia, sempre com grande realismo, movimento e vitalidade. As pinturas mais famosas são as das paredes das palhotas sagradas, que reproduzem cenas da mitologia, como o peixe grande do oceano evocado durante as danças com máscaras, as cobras perigosas, os poderosos feiticeiros-macacos ou cenários mostrando a chegada dos grandes batelões europeus. Estas pinturas são feitas pelos rapazes da aldeia, enquanto as raparigas fazem os desenhos geométricos que se encontram nas paredes exteriores dos armazéns.

As três cores básicas (vermelho, preto e branco) são preparadas com materiais locais:

A cor vermelha - Obtém-se de um ocre vermelho que se encontra no mar. Um outro tipo de ocre, encontrado nos pântanos de água doce, é utilizado para cobrir o cabelo dos rapazes e das raparigas durante as cerimónias de iniciação e para pintar as estátuas sagradas.

A cor preta. - E feita geralmente a partir do carvão de uma planta especial. Para tingir as saias de palha usam um lodo preto que se encontra onde crescem os mangais (C. tarafe). A tinta preta também pode ser obtida fervendo as folhas das mangueiras juntamente com as de uma outra árvore.

A cor branca. - Obtém-se cozendo as conchas de um certo tipo de ostra muito comum no arquipélago ou através de um pó branco calcário.

Afirma-se que para além destas três cores básicas, os artistas bijagós sabem como preparar o verde, o amarelo (de um ocre-amarelado) e o azul-claro. Actualmente, contudo, é normal a maioria dos artistas usar tintas provenientes do mercado europeu. Para conseguirem uma superfície lustrosa e protegerem as estatuetas das térmitas, substituíram o tradicional óleo de palma pelo verniz comprado nos armazéns locais.

 
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