AS CERIMÓNIAS RELIGIOSAS


(tomado da "Etnologia dos Bijagós da Ilha de Bubaque (1978)",
escrito pelo pesquisador da antropologia, Luigi Scantamburlo)

 
 

As cerimónias religiosas

A vida dos Bijagós no arquipélago continua difícil e imprevisível. As doenças endémicas, como a malária e a elefantíase, e as fontes de alimentação instáveis levam os habitantes a acreditar que a sua existência é uma dádiva contínua de Deus. “Se Deus ajudar” é a expressão usual. A vida, a alimentação e a harmonia provêm do mundo dos espíritos e não do do homem.

Usando as cerimónias religiosas, alguns bijagós desenvolvem capacidades de combater a doença e a má sorte.


Diferentes tipos de cerimónias

Durante as cerimónias, a morte de uma galinha desempenha um papel fundamental. A galinha salta durante as convulsões, revelando deste modo muitas coisas:

1) A desgraça é possível se a galinha não salta absolutamente nada.

2) O melhor presságio é quando a galinha, após saltar por todo o lado, cai de patas para o ar. Isto significa que o espírito aceitou o diálogo. Se fica de perfil, significa que o espírito está observando, mas deve-se esperar por um sinal posterior. A boa sorte é também assinalada se a ga1inha acaba por ficar voltada para leste.

3) Geralmente acredita-se que as galinhas devem passar próximo ou mesmo tocar em todas as pessoas envolvidas na cerimónia e regressar depois para o espírito Orébok ou para o banco sagrado.

4) Se a galinha salta e rodopia, é sinal do que alguém da tabanca está perto da morte.

Muitas vezes, a morte de uma galinha pode resolver uma situação de incerteza com uma rápida resposta que dê orientações às pessoas.

Durante as cerimónias, é preciso que as pessoas comem em conjunto. Nalgumas ocasiões, quando as pessoas estão muito perturbadas devido a alguma calamidade, matam um animal e lançam-no na floresta como um último apelo ao espírito.

Existem cerimónias para: a consagração de objectos e pessoas para a esfera religiosa; o cultivo do arroz; para pedir protecção para as novas culturas; pedir chuva ou deter o seu excesso; e para pedir uma viagem segura, uma gravidez, ou outras necessidades.

Existe também uma cerimónia onde se pede a morte de em inimigo. Utiliza-se uma galinha e um ovo.


Os praticantes da medicina

As plantas usadas com fins medicinais chamam-se unikán, que significa “medicina”. São eficazes. Por exemplo, o remédio contra o veneno da serpente, é-o bastante.

Devido à autonomia e auto-suficiência, a poderosa classe dos praticantes de medicina não se desenvolveu da mesma forma que noutras sociedades da África Ocidental. No entanto, algumas tabancas têm peritos no conhecimento do poder curativo das plantas. Estes praticantes de medicina também desenvolvem cepa cidades para preverem o futuro e realizarem truques.

Devem começar cedo a reconhecer as diferentes plantas da floresta e deve encontrar alguém que o instrua. O pai nunca pode revelar ao filho ou a um parente próximo o conhecimento que possui, a não ser que se lhe pague o preço que pede. É uma crença bijagó de que é inútil e perigoso revelar os seus segredos sem se ser recompensado. A medicina pode perder a sua eficácia e o mundo da natureza irá retirar a sua cooperação e harmonia ao mundo do homem.

Eles confiam nas cerimónias religiosas para conseguir a eficácia dos medicamentos que usa. Uma grande importância é dada ao mundo poderoso dos espíritos, no processo da cura.

As práticas que desenvolvem acções prejudiciais para o povo pertencem à categoria dos feiticeiros.

Os feiticeiros podem viver na tabanca sem que se saiba e sem serem reconhecidos. Contudo, cedo ou tarde, devido às suas acções serão descobertos e expulsos.

As cerimónias religiosas possuem a capacidade de criarem relações de amizade entre as pessoas. Uma vez, enquanto participava numa importante cerimónia com dois amigos bijagós, um dele; disse-me em frente do espírito Orébok: “Agora não podemos recusar nada um ao outro. Eu dar-te-ei tudo o que possuo.”

 
A Personalidade dos Bijagós

 Voltar aos "Bijagós"                                                                                               Voltar á Homepage