INICIAÇÔES E DUFUNTU


(tomado da "Etnologia dos Bijagós da Ilha de Bubaque (1978)",
escrito pelo pesquisador da antropologia, Luigi Scantamburlo)

 
 

Ritos de iniciação

Existem cerimónias de iniciação para os homens (manrach) e para as mulheres (Dufuntu). Só os homens podem ter o manrach, enquanto as mulheres realizam as cerimónias do Dufuntu, não para elas próprias mas em favor dos rapazes mortos que entram nos seus corpos.

O manrach é tão importante que foi criado para ele um espírito especial: O iran di fanadu. Quando os jovens entram para o lugar sagrado do manrach, pertencem a este espírito e podem fazer somente aquilo que lhes disse para fazer. Se um dos jovens morre, ninguém pode ser culpado, por que é este o desejo do espírito. Se um deles é culpado de graves transgressões, poderá enfrentar a pena de morte para que se possam restabelecer relações pacíficas com o espírito.

Os ritos de iniciação são ocasiões de repetição dos modos de vida tradicionais. Os mais velhos, ajudando os jovens a aceitar as tradições bijagós, relembram o que lhes foi ensinado e o que aprenderam através da sua experiência de vida. Retirados na floresta, podem reconstituir a visão que os Bijagós têm do mundo e adaptá-la às novas situações que se lhes apresentam. Abolirem a circuncisão porque é demasiado perigosa para a vida dos jovens. Estão também a modificar a velha norma do kamabi, que exigia um rigoroso celibato durante pelo menos cinco a sete anos.

O povo bijagó diz que os pais são capazes do criar fisicamente os seus filhos, mas incapazes de disciplinar as suas emoções e as mentes. Os mais velhos precisam mandar os jovens para o manrach, para que possam ser iniciados nas tradições culturais da tabanca. O manrach ensina, através da disciplina e da obediência aos mais velhos, o modo como os jovens se podem autocontrolar e subordinar as suas ambições pessoais às necessidades da comunidade. Um bom bijagó não é egoísta, tem o clã no pensamento.

Uma pessoa de 60 anos que esteja a realizar os ritos de iniciação recebe o mesmo tratamento severo que um jovem. Para indicar este renascer para o mundo dos Bijagós, os jovens da ilha do Uno imitam a voz das crianças quando saem do manrach. Começaram precisamente agora a ver do novo a luz do mundo que os rodeia.


O manrach dos homens

Na ilha de Bubaque, o espírito Orébok da tabanca de Ancamona controla a realização do manrach. Todas as tabancas têm de pedir, através de uma cerimónia onde se mata uma vaca, o privilégio de obterem o fogo sagrado para o manrach.

Esta cerimónia, que no passado durava entre seis meses a dois anos, é lembrada como o tempo da austeridade, do castigo, dos muitos ensinamentos dos mais velhos e um período de separação da vida feliz na tabanca e dos amigos. Os principais ensinamentos incidem sobre o trabalho agrícola e o artesanato, cerimónias e ritos fúnebres e sobretudo os valores fundamentais das tradições. Ensinam o jovem a respeitar os mais idosos, a ser hospitaleiro, a repartir com todos.

a) O período anterior à entrada na floresta

Nesta altura os jovens têm o cabelo cortado, porque o novo cabelo irá pertencer ao espírito do manrach. Limpam um espaço na floresta, onde se realizará o manrach. Na praia preparam uma armadilha para apanhar peixe.

Quando os mais velhos concordam com a data, os jovens são metidos nas cabanas sagradas. No dia seguinte começam a dançar de tabanca em tabanca acompanhados pelas raparigas e mulheres jovens. Anunciam a chegada do manrach e despedem-se das pessoas.

Depois de cada um dos jovens ter reconhecido os seus pais em frente de toda a gente e as suas verdadeiras amantes, dando-lhes presentes, inicia-se uma longa noite de dança e agradecimentos. No dia seguinte entram no manrach. As mães e as mulheres da tabanca choram e os outros gritam e berram. A partir deste momento os jovens tornam-se jovens adultos, pertencentes ao espírito do manrach.

b) O período do “manrach

Todos devem obedecer e aprender aquilo que lhes é ensinado. Muitos ensinamentos são dados através da experiência de uma nova vida na floresta, longe do quotidiano da tabanca. Os participantes estão em contacto com a natureza, com os mais velhos, com os ancestrais e com o espírito Orébok. É uma nova experiência psicológica e religiosa. Não estão a ser pressionados e estão livres para absorver, aceitar e adaptar o seu pensamento e emoções ao novo meio. As vozes amigas da floresta, a obediência aos mais velhos, a fala rítmica do “bombolom” e a determinação de guardar os segredos nunca irão ser esquecidas para o resto das suas vidas.

No passado, os Bijagós tinham o rito da circuncisão. Foi eliminado devido às mortes que ocasionava. Dizem que as tatuagens no peito e no abdómen substituem a circuncisão. Durante o antigo manrach alguns teriam morrido devido a doença ou transgressões. A notícia deveria ser enviada à mãe por um mensageiro, que quebra em frente dela a tigela que pertencia ao filho agora morto. Todos os presentes compreendem e ninguém faz mais perguntas. A morte simultaneamente o desejo e o preço do manrach.

Os primeiros dias são muito difíceis, devido à escassez e à qualidade da comida. há arroz sem peixe nem carne. Há também as cerimónias de espancamento. Depois do importante ritual do banho, os iniciados recebem o novo nome, vestem a tanga e comem muito melhor. Nesta altura os mais velhos começam a ensinar. Cada um ensina o assunto que melhor conhece. O jovem aprende a fazer perguntas ao espírito Orébok e as formas de cumprimento entre si. Quando dois bijagós se encontram, primeiro apertam as mãos e dizem um ao outro o nome adquirido no manrach; depois cada um deles leva a mão ao coração, apertam novamente as mãos e colocam a mão direita no ombro esquerdo.

Um outro aspecto importante do manrach é o reconhecimento dos ritmos tocados pelo “bombolom”.

c) O último dia do “manrach

O “bombolom” anuncia o regresso dos novos jovens adultos. As cabanas usadas durante as cerimónias de iniciação são queimadas. Chegam com os rostos cobertos com lenços, vestidos com folhas de palmeira e trazem uma lança comprida de madeira e um escudo feito de junco. Executam a dança dos jovens adultos. Primeiramente relembram as proezas dos antepassados, representam o acto de remar com a grande canoa de guerra dos Bijagós, com a cabeça de boi na proa, e finalmente diversas acções do quotidiano, como a caça ao macaco, o cultivo e o pilar do arroz.

O caminho, longo e árduo, para a plena maturidade começou agora.


As cerimónias do “Dufuntu”

O povo bijagó possui a forte crença de que se um rapaz morre antes de realizar as cerimónias do manrach, fica impossibilitado de encontrar o caminho para a terra dos seus ancestrais. A alma andará em volta das tabancas e vagueará de ilha em ilha, inquieta, infeliz e por vezes fazendo mal aos vivos. Só se tiver a possibilidade de entrar num corpo humano para realizar as cerimónias que faltam pode tornar-se um adulto e encontrar o caminho desejado (kadjoko kanindo). A alma geralmente entra no corpo de uma rapariga na altura em que o seu corpo de criança se transformou num corpo de mulher.

A relação com a alma do morto é vista, sobretudo pelas mulheres, como um mal necessário e é considerada perigosa. Só podem controlá-la, aceitando-a e fazendo o que o morto lhes diz para fazerem. O “bombolom”, através do falar rítmico das suas pancadas, é o único meio que têm para ouvir as vontades do morto.

A mãe do rapaz que morreu numa idade jovem reconhece na rapariga que dança a presença do seu filho. A rapariga nunca irá lembrar-se de coisa alguma que lhe aconteceu poucos dias antes. É como se tivesse desaparecido para um outro mundo, sem deixar qualquer memória.

O longo percurso das cerimónias dá às mulheres um estatuto mais alto; normalmente só o homem experimenta o manrach. A única hipótese que a mulher tem de experimentá-lo é através da alma de um rapaz falecido realizando com ela as cerimónias que faltam. Assim, as mulheres podem obter o mesmo estatuto social que o homem, o que poderia considerar-se a sua emancipação. Uma outra teoria explica as cerimónias do Dufuntu através da convergência com os ritos da iniciação masculina. Uma mulher, para se tornar uma autentica mãe e um verdadeiro membro criativo da sua sociedade. deve gerar não só física mas também espiritualmente. É característica da sociedade bijagó o reconhecimento da importância e da dignidade das mulheres. Um filho nunca ofenderá a sua mãe, acreditando que ela pode, através de uma cerimónia especial realizada de manhã na praia, chamá-lo de volta ao seu ventre.

As cerimónias das mulheres são realizadas em lugares sagrados da floresta, diferentes dos dos homens. Só o chefe e o orase podem entrar neles. Os orase são escolhidos pelas mulheres mais velhas para fazerem o trabalho mais pesado e tocarem o “bombolom” durante as cerimónias.

As raparigas vivem na floresta de dois meses a um ano. É precedido de grande festividade e danças em redor da tabanca. As raparigas vestem as saias de palha compridas características do Dufuntu. As almas começam a chamar-lhes n’unté, que significa “esposa”. Quando chega o fogo sagrado da tabanca de Ancamona, as raparigas são convidadas pelo “bombolom” a entrarem na floreste.

Um dos objectivos principais deste período é ensinar-lhes o trabalho agrícola e como recolher os frutos selvagens da floresta ou os moluscos das praias. Tal como os rapazes, elas dizem que este período apresenta aspectos de austeridade e maus tratos. Há outros que não concordam com este ponto de vista.

Um aspecto importante das cerimónias é a aprendizagem da língua, das danças e das canções do Dufuntu. Cada rapariga realiza uma dança específica, de acordo com o desejo da alma que tem dentro de si.

As canções estão relacionadas com os sonhos, esperanças e desilusões do dia-a-dia. A rapariga e a mãe do rapaz falecido relembram estes aspectos em frente de todos, com o fim de receberem consideração e ajuda. As canções actuam como uma catarse para a mãe e ajudam-na a aliviar do sofrimento e dor pela morte recente. Pede compaixão e ajuda às almas para que lhe tragam saúde e prosperidade na vida presente.

O tambor sagrado está sempre presente com o Dufuntu para falar com elas e interpretar a sua vontade.

No dia em que as raparigas regressam da floresta, usam um par do calças e sapatos de homem. Estão cobertas com folhas de palmeira e têm um chapéu triangular na cabeça. Dançam durante três dias.

Quando as danças acabam, elas retomam o seu estatuto verdadeiro. Permanecem no lugar dos velhos durante dez dias, usando lindas saias. Chegam visitantes para as cumprimentarem e felicitarem. A partir desta altura são chamadas kamabi, como os jovens adultos. Tal como no grau de idade masculino correspondente, elas começam a oferecer presentes às mulheres mais velhas.


Outras cerimónias do Dufuntu

No mínimo uma vez por ano recebem novamente a visita das almas.

São acontecimentos imprevisíveis. Podem estar relacionado com um grande acontecimento como a morte do chefe ou qualquer outra calamidade. Os habitantes da tabanca interpretam estas calamidades como um castigo pelas suas transgressões contra os espíritos. O Dufuntu, através das suas cerimónias, irá restaurar a harmonia.

 
As Cerimónias Religiosas

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