A COSMOLOGIA DOS BIJAGÓS


(tomado da "Etnologia dos Bijagós da Ilha de Bubaque (1978)",
escrito pelo pesquisador da antropologia, Luigi Scantamburlo)

 
 

Os Bijagós são um povo pragmático. No seu tempo disponível preferem gastar as energias a esculpir madeira, passear pelas ilhas ou procurar vinho de palma para compartilhar em agradável companhia. Não estão preocupados em tentar responder a questões profundas. Muitas vezes, dizem coisas como esta: "Eu faço assim porque os mais velhos me disseram para fazer."

A melhor altura para aprender acerca do modo e estilo de vida dos Bijagós é durante as cerimónias de iniciação. Retirados na floresta, longe das tarefas quotidianas, sentem-se livres para imaginar, relembrar e reconstituir a sua perspectiva do mundo.

Lembro-me de uma noite em que falava com Edicok, o chefe de Bijante, e lhe fazia perguntas sobre o espírito Orébok. Inspirado, disse-me: "Quer saber realmente alguma coisa sobre o espírito Orébok? Então fale com e1e e ele responder-lhe-á dizendo-lhe o que deve fazer. Quando tenho algo muito importante no meu pensamento, falo com ele, a qualquer hora do dia ou da noite".


Conceito do Ser Supremo e de outros deuses

O Ser supremo (Nindo) é idealizado como um ser que está acima de tudo, difícil de ver e de contactar. Os Bijagós consideram também como seres supremos, segundo a sua importância, o sol, a lua, as estrelas, o fogo e o vento.

Os espíritos estão em geral presentes nalgumas estátuas ou objectos feitos com esta finalidade. Alguns exemplos:

a) Unikán orébok -
Este espírito é sempre representado por uma figura antropomórfica, na ilha de Bubaque.

O essencial para a consagração da estátua é um ingrediente feito de sangue animal, que é colocado no abdómen e à volta da parte inferior da estátua. A estátua, com excepção do rosto e do pescoço, é coberta de tecido branco, preto e vermelho. Outros objectos atados à estátua são: uma mala pequena para recolher as almas, um chapéu e um anel, um rabo de vaca e uma cabaça pequena, que contém sementes da árvore “camudu” que são utilizadas para atrair a atenção do espírito.

Todos os "unikán orébok" têm um nome especial que difere de tabanca para tabanca. Antes de rezar, dever-se-á referir uma longa lista dos chefes mortos e das pessoas mais importantes que viveram na tabanca.

Os Bijagós acreditam que a estátua é a morada do espírito Orébok. Ninguém sabe o que ele representa. A explicação mais vulgar é a de que é o espírito guardião chamado por Deus para proteger os habitantes da tabanca.

O unikán orébok é a imagem viva da História da tabanca e o chefe é o verdadeiro intérprete desta imagem.

b) Unikán ueko -
A pessoa que o possui não pode ser ferida ou morta por nenhuma arma, devido ao seu poder mágico: as balas não penetrarão o corpo humano e as facas e as espadas quebrar-se-ão contra ele. A representação mais vulgar do "unikán ueko" é uma matéria especial feita de diferentes plantas misturadas com ovos e sangue colocada dentro de um corno de vaca, búfalo dos pântanos, cabra-do-mato, carneiro, ou dentro de uma grande concha de moluscos univalves.

Antes de qualquer oração, a pessoa invoca o primeiro proprietário e todos os mortos que se ocuparam daquele unikán ueko. O povo da ilha de Canhabaque é suposto conhecer os melhores segredos, devido à sua oposição bem-sucedida contra o colonialismo português.

c) Eramunde etremmate -
Tal como os outros objectos sagrados, é composto de uma matéria feita de várias plantas medicinais misturadas com ovos e sangue. Tudo isto é fechado num chifre. Este espírito é símbolo do poder mágico dos praticantes da medicina. Este poder é usado para curar, descobrir o passado e prever o futuro.

d) Unikán koratrakó -
O termo "koratrakó" significa qualquer objecto ou cerimónia realizada com o intuito de impedir alguém de se curar.

É um dos poderes mágicos que os Bijagós mais temem. Antigamente era utilizado pelos feiticeiros e por aqueles que queriam amaldiçoar alguém.

Um tipo de koratrakó é feito de seis folhas de palmeira de um verde escuro representando as almas dos feiticeiros e dos inimigos e seis folhas de um verde mais claro representando as almas das pessoas boas. É dado ao rapaz adolescente para protegê-lo dos maus-olhados da vida pública, nesta fase em que é fácil as pessoas sentirem ciúmes. Tem também o objectivo de ajudá-lo a encontrar amor e amizade nas raparigas com quem convive.

Um outro koratrakó, fechado num pequeno chifre de cabra-do-mato, é atado à volta dos quadris e serve de protecção contra a infidelidade da esposa.


O papel do espírito ancestral e a vida depois da morte

Os mais velhos dizem que era muito vulgar, no passado, cometer-se suicídio por enforcamento, sobretudo aqueles que eram alvo de desonra irreparável ou sofriam da doença incurável. Uma pessoa podia ser levada ao suicídio pela crença de que reincarnaria num outro corpo e regressaria à terra. O povo bijagó já não aprova o suicídio.

É uma forte crença dos Bijagós a de que a vida continua depois da morte. As almas vão para um lugar especial na ilha da Unhocomo, situado na ponta ocidental do arquipélago, na cabana sagrada chamada "kandjá kachanná katammé orébok" (a cabana sagrada que mostra o caminho à alma). Aí esperam pela passagem final para o lugar (kadjoko kanindo) onde está o Nindo.

Durante o tempo necessário para se completarem todos os ritos fúnebres, as almas podem ser vistas à volta do arquipélago.

Existem alguns tipos de almas:

Orébok - A alma da uma pessoa morta que espera pela viagem final para o kadjoko kanindo.

Oshó - As almas dos que morrem antes de completarem todas as cerimónias e que vagueiam à volta do arquipélago, manifestando-se aos vivos.

Kasisa - A alma do feiticeiro, que nunca encontrará o caminho para o kadjoko kanindo e cujo lugar é um ponto específico da floresta. Estas almas são muito perigosas para os vivos e aparecem principalmente durante a noite ao longo dos caminhos, como línguas de fogo.

Depois da sua morte, a alma do chefe entra de imediato para o grupo dos ancestrais. Isto ajuda a encarar a presença destes como amigável e bem-vinda e a senti-la quase fisicamente quando as pessoas se reúnem para falar com os que habitam na estátua do espírito Orébok.

A alma pode escutar o mundo poderoso dos espíritos e de Nindo e talvez possa reincarnar num outro corpo humano. É importante manter a união de objectivos entre os dois mundos que são parte da mesma realidade humana.


Ritos e práticas fúnebres

Quando alguém está perto da morte, o chefe ou um velho escolhe uma galinha e corta-lhe o pescoço em frente do espírito Orébok. Se a galinha salta na direcção do chefe, e não na da estátua, não há esperança de recuperação para a pessoa doente. Os parentes e os amigos aglomeram-se no quarto dela. Para deter a morte, tocam o corpo, dirigem-lhe palavras amigáveis, rezam e confiam, até que a alma deixa o corpo. Todas as actividades da tabanca são suspensas com o fim de se iniciarem os preparativos para o funeral.

Os mais velhos levam o cadáver da casa para banhá-lo no mar. Ninguém parece recear o morto. Falam-lhe como se a pessoa estivesse ainda viva. É uma crença que todas as mortes são causadas por alguma coisa ou por alguém. Se a pessoa morta um jovem ou alguém morto subitamente, ninguém estará em paz até que se encontre uma justificação aceitável.

Se o cadáver toca nalgum pilar ou trave de uma casa, no seu regresso à tabanca, é sinal de que os seus moradores são de algum modo responsáveis pela morte. Por isso todos se afastam do caminho quando o grupo que transporta o corpo entra na aldeia.

Os ritos funerários são realizados em três fases distintas:

a) As cerimónias do enterro -
O cadáver é colocado no meio da tabanca, na residência do chefe, com o rosto voltado para o poente. O corpo é vestido com uma tanga ou duas saias de palha, segundo o sexo.

O importante é matar muitas galinhas, pois isso irá revelar algo acerca da causa da morte, através da forma como elas saltam após degoladas. As diferentes interpretações sâo assim:

- A galinha salta na direcção da cabaça que está entre o espírito Orébok e as ofertas. Significa que a pessoa morta roubou alguma coisa;

- A galinha salta na direcção do cadáver. Significa que alguém causou a morte e o morto irá revelar quem é o responsável;

- A galinha salta na direcção do espírito Orébok. Significa que a pessoa morta ou alguém da sua linhagem é responsável por algum delito relacionado com as cerimónias religiosas. O espírito Orébok revelerá a verdadeira causa;

- A galinha salta para fora do grupo, para o meio da palha. Significa que o morto é responsável pela sua própria morte, porque era um feiticeiro. Neste caso deverá ser enterrado fora da aldeia, no floresta, sem mais nenhuma cerimónia.

O cadáver está envolto numa esteira. Perto da cabeça são colocadas uma tigela de arroz e outra de água. Está colocado num buraco circular, com um metro de diâmetro e um metro de profundidade. As anciãs a vigiam, durante cinco noites e dias.

b) O djongago -
Sâo outras cerimónias que irão revelar a causa da morte. O djongago é uma estrutura semelhante a um caixão feita de canas de bambu. Dentro da estrutura são colocadas folhas e ramos de uma planta especial, que se crê poder evocar a alma da pessoa morta.

Na noite de 3 de Março da 1976, estava eu presente na tabanca da Bijante nos rituais do djongago por causa da morte do jovem Bida. Tinha morrido misteriosamente na ilha de Rubane. Juntou-se muita gente. Subitamente o djongago apareceu. Os dois homens que transportavam o djongago ficaram em frente da unikán orébok movendo-se com gestos misteriosos. Um dos mais velhos começou a fazer perguntas ao djongago sobre a causa da morte. As respostas são entendidas pelo modo como os dois homens mexem o djongago. Um dos que transportava o djongago disse-me que não compreendia o que estava a fazer, que era como se o djongago estivesse a dirigir os seus próprios movimentos. Estava muito pesado, como se o cadáver ainda estivesse dentro dele.

Algumas das seguintes perguntas foram feitas durante a noite: "O falecido roubou alguma coisa? Praticou alguma injustiça contro o espírito do manrach? Lutou com alguém?". A todas estas perguntas o djongago respondeu negativamente. Mas quando uma pessoa lhe perguntou se alguém da linhagem do falecido pudesse ter sido responsável pela morte, o djongago aproximou-se primeiro do ancião que lhe tinha feito a pergunta, e após a repetição desta dirigiu-se para a estátua do espírito Orébok inclinando-se perante ela. Era um sinal da confirmação da pergunta. A mãe do falecido apareceu exprimindo a sua dor pela perda do seu único filho: "No kanano mo dikidik mocanamme i Nindo." Isto significa: "Eu aceitei isto porque tudo é da vontade de Deus." Um jovem do mesmo nível etário que o morto levantou-se, advertindo a multidão de que o seu "grupo de idade" mataria essa pessoa, se ela ousasse provocar a morte de mais alguém. Naquele momento um velho, parente de Bida, levantou-se e tocou no djongago, suspendendo quaisquer outras perguntas. Era sinal de que tudo tinha sido compreendido e o ritual terminara. Disseram-me que o velho quisera acabar com as perguntas específicas que pudessem levar o djongago a dar respostas comprometedoras pare algum dos presentes.

Há anos atrás uma pessoa considerada culpada pela morte de alguém, deveria ser executada. Hoje não é mais assim.

Nesta mesma noite do ritual, o djongago é cortado em bocados e queimado.

c) As cerimónias do luto -
O povo bijagó acredita que os mortos continuam a partilhar da vida da tabanca. Os rituais do luto constituem uma ocasião para convidar as pessoas para um agradável convívio. Há comida, bebidas e tabaco e fala-se das qualidades do falecido. A ninguém é permitido mencionar o seu nome. Alguns afirmam ter sido contactados nos seus sonhos pelo morto.

Um homem disse-me que viu uma vez a sua mulher deambulando pelo mar, pedindo água fresca. Reuniu o povo na cabana sagrada e matou uma galinha, perguntando à alma o que desejava. A galinha saltou na direcção do pote da água. O facto foi interpretado como um aviso para se realizarem as cerimónias do luto, o mais breve possível, para que ela pudesse encontrar o caminho para a terra dos seus ancestrais.

Alguém viu a alma de um amigo que morreu na ilha Bubaque atravessar a cabana sagrada na ilha Formosa, no próprio dia da morte e quando ainda ignorava que o amigo estava doente.

A alma é vista como uma sombra vestindo uma tanga, ou uma saia de palha.

 
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