O CASAMENTO E OS NIVEIS ETÁRIOS


(tomado da "Etnologia dos Bijagós da Ilha de Bubaque (1978)",
escrito pelo pesquisador da antropologia, Luigi Scantamburlo)

 
 

O casamento entre os Bijagós

Observando as relações entre homens e mulheres vamos encontrar grande respeito e liberdade nas iniciativas pessoais, de um modo aparentemente desconhecido na maior parte das sociedades da Guiné-Bissau.

Os rapazes e raparigas adolescentes vivem e brincam juntos.

As raparigas parecem evitar qualquer envolvimento emocional. As suas mães e os mais velhos aconselham-nas a esperar e preparar a chegada das cerimónias do Dufuntu, união mística com as almas dos rapazes que morreram antes de realizarem as cerimónias da iniciação. Os rapazes mortos escolherão os corpos delas para reaparecerem na tabanca. A maior parte das raparigas mantêm-se virgens.

Os rapazes adolescentes são mais livres nas suas relações com o sexo oposto. Antes das cerimónias de iniciação, um jovem bijagó pode ter uma mulher que lhe dê filhos.

O modo de vida deles, e sobretudo dos jovens dançando de tabanca em tabanca e de ilha em ilha, coloca-os em situação de se apaixonarem pelas mulheres, fascinadas pela sua força e beleza. Um jovem que seja um bom dançarino, um trabalhador forte e habilidoso, poderá desenvolver mais que uma relação permanente deste tipo. A criança nascida deste género de relação pertence à mãe e o clã toma conta dela.

A sociedade bijagó distinguiu dois tipos de relações sexuais entre homens e mulheres:

a) Relações sexuais antes do período de iniciação - Um jovem não tem ainda o direito de possuir casa própria para viver com as suas amantes. Durante o período de iniciação todas estas relações acabam para sempre, e nenhuma das suas anteriores amantes é aceite para se tornar sua esposa num futuro casamento. Contudo, esta norma está a mudar na ilha de Bubaque.

b) O verdadeiro casamento depois da cerimónia de iniciação - Depois de uma cerimónia especial, e esposa deixa os pais ou a casa do irmão mais velho e vai para a nova casa do marido.

Alguns informadores disseram-me que antigamente a mulher podia escolher o seu amante e o seu marido. Actualmente, na ilha de Bubaque, quer homens quer mulheres podem tomar a iniciativa do primeiro encontro.

Relativamente ao verdadeiro casamento, os Bijagós têm uma cerimónia especial, na qual só os casados podem participar. Os mais velhos, homens e mulheres, acompanham a noiva a casa do noivo, que está à espera, sentado na cama do seu quarto. As mulheres pedem à noiva que se sente perto do seu esposo. Então declaram o seguinte: “Filha, olha para o marido que te damos em casamento.” Depois os mais velhos, aconselhando o noivo, dizem: “Toma conta da noiva, trabalha arduamente para ela e não deixes que vá pedir comida aos outros. Dá-lhe hospitalidade, mas manda-a de volta para casa da sua mãe, se for estéril.

Entre os Bijagós, a poligamia é regra. As esposas podem partilhar a mesma casa ou cada uma pode viver numa casa separada. Entretanto o marido pode ficar sozinho na sua casa com os filhos mais velhos. Algumas vezes uma mulher pode escolher ir viver na casa dos pais ou do irmão mais velho. Neste aspecto parece haver uma grande liberdade e variedade de escolha, o que torna o divórcio frequente. A mulher tem segurança económica no seu clã e na sua família, podendo garantir a subsistência na sua tabanca natal.

Alguns entendidos mostraram-me plantas e arbustos especiais que as mulheres usam para lhes aumentar a fertilidade, como abortivo ou como contraceptivo, por exemplo quando uma mulher pretende ter relações com alguém durante o período de aleitamento. A tradição cultural proíbe à mulher qualquer contacto sexual durante o período de aleitamento da criança. Se ela tiver relações sexuais, dizem que o leite do seu peito secará e a boca da criança inchará e ficará gretada. Na altura do desmame, o marido, que deseja a sua mulher; pode levar a criança para o mato e dar-lhe vinho de palma e arroz, cessando assim o aleitamento.


Os níveis etários

Na filosofia bijagó, a vida avança passo a passo. Cada um aprende com os outros e consigo próprio a adaptar-se ao meio e a relacionar-se dentro e fora da tabanca. As crianças são respeitadas como pessoas e levam pouca ou nenhuma pancada. Pode ouvir-se chorar uma criança bijagó porque está doente, tem fome, ou algum companheiro a magoou, mas não porque um adulto lhe tenha batido. Se um adulto bate numa criança é imediatamente criticado pelos outros.

Mesmo quando os velhos e o chefe devem castigar alguém, a clemência parece ser sempre a atitude normalmente adoptada.

Numa situação na tabanca de Bruce, as raparigas adolescentes eram privadas de comida. Queixaram-se e os outros habitantes concordaram que o castigo era demasiado severo e então os mais velhos tiveram que dar um garrafão de vinho às raparigas como desculpa do seu acto.

Os jovens são ensinados a respeitar os mais velhos e a repartirem os seus bens com todos. Quando as crianças começam a amadurecer e se pensa que já têm capacidade de entendimento, encontram-se com os mais velhos. Dividem alguns bens com eles e dando, conhecem e são conhecidos pela primeira vez. A lição de dar e conhecer os outros pela dádiva é aprendida para sempre. A tabanca é a unidade de grandeza e responsabilidade social, não de fraqueza e individualismo.


Níveis etários do homem

"Ongbá" (crianças de 2 a 6 anos de idade)

Logo que a mãe verifica que e criança está viva no seu ventre, começa a untar o abdómen com óleo de palma para que o bebé cresça forte e saudável, e dois meses antes do parto suspende a actividade sexual.

Tradicionalmente, o parto ocorre na casa da mulher com a assistência das outras mais velhas. O cordão umbilical é cortado com uma navalha feita de casca de lingueirão. A mãe da nova mãe apressa-se a dar as boas novas ao pai, que deve dar de imediato um nome à criança.

A mãe ata-lhe um cordel à volta do pulso esquerdo e um outro à volta da cintura, dizendo: “Ponho este koratrakó (o espírito que protege de qualquer espécie de mau-olhado) à volta do pulso e da cintura do meu filho, para protegê-lo.”

Aos três anos a criança é desmamada. A cerimónia usual para o desmame é a ida ao lugar sagrado onde a mãe pediu um filho pela primeira vez.

"Kadene" (dos 7 aos 11 anos)

Uma cerimónia alerta os rapazes para respeitarem e obedecerem aos seus pais e da-lhes também ensinamentos, tais como o cortar da madeira, a protecção das culturas e a recolha, com a mãe, dos moluscos e frutos. Durante este nível etário, dançam com o rufar de um pequeno tambor e usam um anel para enfeitar o tornozelo, feito de caroços de manga juntamente com algumas conchas de amêijoa.

"Kanhokam" (dos 12 aos 17)

As principais actividades deste nível são as danças e as deslocações de tabanca em tabanca. Os ornamentos para as danças são folhas de cibe, um amuleto em madeira e vários anéis à volta dos tornozelos feitos de ervas. Os mais importantes são as máscaras de madeira que representam os peixes perigosos do mar, como o peixe-martelo, o espadarte e o peixe-espada. Também são importantes o pelicano, a galinha doméstica e um escudo e uma espada feitos de madeira. A dança é uma espécie de dança de guerra, com canções relembrando aventuras de batalhas à volta do mundo.

"Kabaro" (dos 18 aos 27)

É a época mais feliz da vida do bijagó, lembrada com saudade por todos como período de liberdade, amor e abertura para o mundo. Esta fase dura até que os jovens estejam preparados para as cerimónias do iniciação. Vão dançar de tabanca em tabanca, sobretudo durante a estação seca, alegrando as noites dos seus moradores com o ritmo veloz dos tambores, e com as suas canções que lembram ligações amorosas bem e mal sucedidas. As canções pedem o amor de todas as mulheres que os estão a ouvir. Nesta altura, os jovens têm os primeiros filhos com mulheres não casadas e por quem estão apaixonados. Os dançarinos usam lenços de fantasia à volta dos braços, anéis de metal em volta dos tornozelos e uma espada na mão direita.

Os característicos dançarinos da máscara com chifres, tão famosos em todas as ilhas bijagós, representam três tipos de danças; a dança da vaca, a dança do touro e a dança do touro bravo.

Durante esta longa fase, os jovens têm que se sujeitar a cerimónias importantes antes de passar à próxima. Devem oferecer presentes caros aos mais velhos e ao pai. As ofertas podem ser vacas, muito peixe, grandes quantidades de óleo de palma e vinho de palma. Além disso devem expor-se a dois cerimónias de espancamento, embora não tão penosos. As pancadas são dadas pelos homens da tabanca, e os espancamentos têm dois sentidos: castigo por todas as transgressões cometidas pelos jovens e prova da sua força antes dos sofrimentos físicos que em seguida irão encontrar. Os sofrimentos futuros são os que irão experimentar depois de acabarem os anos de dança e entrarem no período sério das suas vidas.

"Kamabi" (dos 27 aos 35)

Este período vem dois anos após as cerimónias de iniciação na floresta. É o grupo de idade mais penoso, um longo rito de passagem a uma vida mais responsável. Durante este período os iniciados não podem entrar ou dormir em nenhuma casa, mas sim numa simples cabana no meio da tabanca. Estão proibidos de ter relações sexuais com qualquer amante e no início deste período etário nem sequer podem falar a mulheres, nem mesmo à própria mãe. Os kamabi não possuem nada, nem mesmo o seu próprio vestuário, e têm de fazer os trabalhos pesados da tabanca. Os mais velhos podem pedir-lhes qualquer tipo de ajuda e eles não podem recusar. Praticamente todo este período é passado a trabalhar e a procurar os bens necessários ao pagamento aos mais velhos.

Sujeitam-se a seis cerimónias de espancamento e devem fazer grandes ofertas aos mais velhos, a quem dão vacas, cabras, porcos, arroz, etc. É durante este período que as amizades aumentam de dia para dia e permanecem para o resto das suas vidas.

O vestuário tradicional do kamabi é uma simples tanga feita de pelo de cabra, um lenço à volta da cabeça, e uma lança comprida de madeira de duas pontas, com um escudo oval ou adarga. Actualmente, em quase todas as ilhas, os kamabi vestem também roupas europeias e podem arranjar uma esposa antes de ter acabado todas as cerimónias.

O que é mais importante para alguns é o facto de actualmente lhes ser permitido retomar por esposas as antigas namoradas. Isso constitui uma grande mudança na tradição devido ao contacto com os europeus: os mais velhos preferiram modificar as regras, em vez de as deixarem perder o significado devido às contínuas violações.

"Kachuká" (dos 36 aos 55)

O kachuká pode casar segundo a cerimónia tradicional, construir a sua própria casa e ter a sua própria terra. Geralmente usa roupas europeias atractivas, compram panos caros, colares de ouro e de contas, pulseiras e brincos para serem notados pelas mulheres.

"Okotó" (mais de 55 anos)

Um ancião não tem mais filhos e ocupa-se da sua prole numerosa, ensinando-lhes as suas tradições.

Á medida que envelhece, os seus pensamentos são cada vez mais dirigidos para o dia da passagem para a terra dos seus ancestrais. Usa somente uma tanga de pele de cabra ou de fabrico europeu e guarda as roupas melhores para o dia do seu funeral.


Níveis etários nas mulheres

"Ongbá" (2 a 6 anos)

As raparigas pequenas seguem a mãe por toda a parte e ajudam-na a apanhar moluscos e frutos.

"Kampuni" [dos 11 aos 20 anos)

É o grupo de idade das cerimónias do Dufuntu. "Kampuni karák Orébok" diz a mãe para o pai da rapariga, o que quer dizer que ela dança na presença da alma. As raparigas que passam pelas diferentes cerimónias do Dufuntu tornam-se kabaro e kamabi, tal como os correspondentes graus de idade dos rapazes. Vestem saias, bastante compridas e pintada de vermelho e preto. Passeiam-se geralmente em grupos com uma lança de madeira na mão direita.

"Okanto" (mulheres casadas de 21-50 anos)

É o nome dado à mulher quando se torna mãe.

Okanto também se refere às kampuni que dão à luz ante das cerimónias do Dufuntu. Ter uma criança antes destas cerimónias é considerado uma vergonha para a avó, que repetirá para uma sua amiga: "A minha filha deu à luz uma criança, era ainda uma rapariguinha e não dançará para Orébok, porque já deu à luz uma criança".

"Okotó" (após 50 anos)

Este grupo já não teme os espíritos da morte, porque já os viu e pode falar-lhes de forma amigável e sem receio. As mulheres deste grupo são as únicas a quem é permitido falar sobre as cerimónias do Dufuntu. As mais novas não podem discutir, em caso nenhum, este assunto tão secreto e assustador.

 
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