OS CHEFES DE ALDEIAS


(tomado da "Etnologia dos Bijagós da Ilha de Bubaque (1978)",
escrito pelo pesquisador da antropologia, Luigi Scantamburlo)

 
 

Autoridade política e religiosa do chefe da tabanca

Cada tabanca é sob o domínio de um chefe do sexo masculino. O chefe, geralmente vindo de fora da tabanca, é escolhido por todos os seus membros. Os seus principais deveres:

a) A responsabilidade pelo culto do espírito protector da tabanca (uníkan Orébok). Todos os dias deve rezar e fazer ofertas para o bem-estar dos habitantes;

b) Presidir à realização das cerimónias religiosas e às reuniões dos mais velhos, na praça;

c) Manter aceso, com a ajuda da sua esposa, o fogo sagrado que recebeu do Dufuntu no dia da sua consagração.

d) Agir como pólo de união nas diferentes actividades da tabanca. Devido às oportunidades iguais dadas simultaneamente a homens e mulheres nas actividades religiosas e económicas os conflitos e desentendimentos são muito frequentes no dia-a-dia. O chefe, devido ao seu contacto com homens e mulheres nas cerimónias está em posição de resolver estes conflitos e restabelecer as relações entre ambas as partes. Esta capacidade é valorizada porque ele veio de fora e pode actuar como uma verdadeira parte neutral;

e) Administrar e justiça. A paz e a harmonia são as duas coisas mais desejadas por todos os membros da tabanca. Acreditam que quando surgem conflitos ou foi feita alguma injustiça contra alguém, os espíritos ficam contrariados e é quebrada a harmonia entre os dois mundos, que terá de ser restabelecida. Além do mais, se acidental ou propositadamente algum sangue humano toca na terra, deve haver uma compensação através do sacrifício de um animal, vaca ou cabra, consoante a gravidade da ofensa. Se não há sangue implicado, como acontece nas discussões e nalguns espancamentos, é suficiente fazer algumas oferendas ao espírito Orébok na presença do conselho dos mais velhos. O chefe, conjuntamente com eles, vai decidir o que deve ser pago, para se entrar novamente nas graças de Orébok, e se readquirir a sua protecção;

f) Controlar os direitos do posse da terra e a sua distribuição no começo de cada ano agrícola, o que no entanto não lhe concede poder absoluto e muitas vezes tem que trabalhar mais arduamente que todos os outros, de forma a manter a sua reputação e riqueza suficiente para lhe permitir ser hospitaleiro para. com os outros. Geralmente toda a terra da tabanca lhe pertence. Os habitantes da aldeia deverão pagar-lhe uma pequena percentagem das colheitas de modo a compensá-lo das despesas com os sacrifícios oferecidos na comunidade e a ajudá-lo a ser hospitaleiro para com a povo. Também o compensam pelo tempo que passa ausente do trabalho do campo, realizando cerimónias religiosas. Se alguém de outra tabanca pede para trabalhar aqui na agricultura, o que acontece quando as pessoas se deslocam para a ilha de Rubane, onde a terra é fértil, as taxas são muito altas e obrigatórias.


As cerimónias para o empossamento do chefe

Em Março de 1976 tive a oportunidade de estar presente nas cerimónias para a consagração de Coia, o novo chefe da tabanca de Bruce na ilha de Bubaque. Foi eleito chefe pelos homens grandes de Bruce desde 1974, devido à sua ligação na outra tabanca de Bijante, com o mesmo clã Orácuma e à sua reputação de homem pacífico a de trabalhador habilidoso e incansável, toda qualidades indispensáveis para dirigir a grande aldeia do Bruce.

Na noite de 20 de Março de 1976, chegaram a Bijante pelo menos uma centena de pessoas para levar o futuro chefe, que vestia somente uma tanga feita de pele de cabra e tinha as mãos atadas. Acompanharam-no até Bruce e empurraram-no nu para a cabana sagrada. O passo seguinte, foi o envio da mensagem para todas as tabancas da ilha, através do “bombolom”:

Temos chefe. Temos chefe.
Deus deu-nos o chefe. Deus deu-nos o chefe.

Na tabanca, todos os presentes, homens e mulheres, jovens e velhos, começaram a dançar e a bater palmas pelo grande acontecimento e pela felicidade que estava trazendo para todos.

Nos dias seguintes realizaram-se muitas cerimónias. Mataram uma vaca em frente à cabana sagrada do novo chefe, para protecção da sua nova morada e ajuda para tratar com o espírito Orébok e com as almas dos ancestrais. Mataram uma segunda vaca para o novo fogo sagrado. Foram construídas duas casas, o kabango kaunikan e o naó, símbolos da presença do chefe na aldeia.

Durante as cerimónias Coia recebeu instruções dos dois chefes presentes da ilha de Canhabaque. O de Bijante faltou porque estava doente e hospitalizado, mas no entanto foi-lhe enviado um mensageiro por duas vezes a pedir instruções. Este episódio aumentou a minha compreensão pela atitude dos Bijagós em relação às suas crenças e práticas religiosas, não lhe importando o conhecimento técnico que lhes é proporcionado, mas sim o conhecimento actual resultante da sua participação pessoal e activa nas cerimónias, quer dizer, a sua própria experiência.

Foram escolhidos devido às relações especiais existentes entre as duas ilhas, desde velhos tempos. Durante a longa semana de cerimónias, os dois chefes instruíram Coia nalguns dos segredos das tradições bijagós, juntando-lhes as suas próprias experiências.

É da tradição oferecerem-se presentes quando estes segredos são revelados, a não ser que esta chamada “informação secreta” seja inútil. O novo chefe tinha de recompensar os informadores cada vez que lhe era dada uma informação especial, e assim muitas vezes Coia esgotava o tabaco e tinha de mandar buscar mais, o que era feito para agradar aos dois chefes de Canhabaque.

Uma nova linha de contactos estava estabelecida entre os elementos vivos e os mortos de Bruce, através da pessoa do novo chefe, que possuía a capacidade de comunicar com os ancestrais e com Orébok. Um chefe bijagó sabe como tratar com o mundo dos espíritos. De facto, a competência de um chefe aumenta consideravelmente através dos anos em que ocupa este cargo. O seu conhecimento e maturidade engrandecem o seu prestígio entre os outros chefes da sociedade bijagó.


Distribuição da terra e da riqueza

Dentro da sociedade bijagó todos os indivíduos têm as mesmas oportunidades no respeitante à riqueza e hierarquia desde que pertençam à linhagem da tabanca. É uma crença geral dos Bijagós de que quando alguém sobressai demasiado entre os demais, pode tornar-se perigoso. Além disso, é de esperar que compartilhe a riqueza, distribuindo parte dela aos necessitados. Quando se pergunta a alguém quantos animais possui, a resposta nunca é verdadeira e muitas das vezes dão gado e cabras a alguns parentes de outras tabancas ou ilhas, evitando assim oferecê-las para as cerimónias especiais. As pessoas procuram manter secreta a sua riqueza, tanto quanto lhes é possível, para não serem acusadas de feitiçaria, o que pode acontecer quando são demasiado ricas e afortunada. O trabalho duro, contudo, é sempre apreciado e considerado como principal causa da riqueza, boa sorte e sucesso como amante ou come esposo.

A terra trabalhada pela técnica do corte e queimada é dividida todos os anos segundo as necessidades da dimensão da família. As mangueiras, contudo, pertencem a todos da tabanca, mas as palmeiras de óleo, sobretudo as melhores, de onde se extrai vinho continuamente, são propriedade privada do quem a fertiliza.

No que respeita a bens móveis, tais como animais, roupas e utensílios pessoais, são considerados pertença de cada um e muitos deles são enterrados ou destruídos com a morte e outros são conservados.

 
O Casamento e os Niveis Etários

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