A FAMILIA DOS BIJAGÓS


(tomado da "Etnologia dos Bijagós da Ilha de Bubaque (1978)",
escrito pelo pesquisador da antropologia, Luigi Scantamburlo)

 
 

AS RELAÇÔES DO PARENTESCO TRADICIONAL E O SISTEMA POLÍTICO

A unidade de base, política e económica, da sociedade bijagó é a tabanca (aldeia). É autónoma e geralmente auto-suficiente. A forma de poder considerada a mais fiel à tradição é a que permite a existência de um chefe para cada tabanca de uma ilha„ tal como na Ilha de Canhabaque.

Na Ilha de Bubaque, onde as tradições estão a mudar e os novos poderes políticos do país influenciam todos os aspectos da vida da tabanca, havia só dois chefes.

Os homens permanecem na tabanca onde nasceram, com o seu pai e irmãos. Os irmãos mais novos, se lhes for autorizado, podem construir as suas casas próximo da do irmão mais velho. Antigamente os filhos achavam-se sob a total responsabilidade das mães, mas actualmente podem ficar com quem preferirem, embora e mãe exerça uma grande influência até se tornarem jovens adultos. A residência após o matrimónio é a do marido e as irmãs ou filhas mudam-se para lá. Em caso de morte do marido ou de divórcio, as mulheres podem regressar a casa do irmão mais velho.


Normas de descendência e graus de parentesco

Antigamente, o clã da mãe deveria permanecer obrigatoriamente exógamo, isto é, nenhum casamento era permitido entre dois indivíduos cujas mães pertencessem ao mesmo clã. A influência cristã (kristons eram os baptizados segundo a religião cristã ou os que viviam entre os brancos) permitiu o casamento entre primos, o que liberalizou as regras matrimoniais entre alguns bijagós.


As regras gerais da descendência

O povo de Bubaque diz ser descendente dos quatro primeiros ancestrais, Oraga, Oracuma, Ominca e Ogubane (ou Onoca). Qualquer tabanca pertence a um destes quatro clãs.

A descendência é considerada na linha materna, todos pertencem ao clã materno, o que é importante para requerer direitos sobre a terra e obter responsabilidades especiais na tabanca. Os que pertencem ao mesmo clã do chefe da tabanca têm geralmente a melhor parte quando a terra é diasbuída no início de cada ano. Como a residência após o matrimónio é a do homem e a descendência é matrilinear, os clãs podem teoricamente desaparecer, caso todas as mães pertençam a clãs diferentes do clã proprietário da tabanca.

A descendência por via materna é um princípio de unidade de todo o povo, porque os quatro clãs estão presentes em todas as ilhas e também porque não permite a divisão da terra, propriedade da tabanca, protegida pelo estatuto do chefe que numa tabanca é sempre do mesmo clã. Contudo, o facto de a habitação ser a do homem, preserva a verdadeira propriedade na tabanca e mantém as estruturas sociais nas mãos dos parentes paternos, reforçando assim a importância do homem na estrutura económica, dando estabilidade às tarefas agrícolas e mantendo unidas as grandes famílias, apesar do divórcio e da poligamia.

Quando uma família cresce demasiado os irmãos, com a autorização dos mais velhos, podem separar-se e formar dois grupos distintos na mesma tabanca. No entanto, um homem bijagó nunca se muda para outra tabanca, a não ser que seja uma nova, formada a partir da sua. Se tiver que se mudar devido a conflitos graves com o irmão mais velho, é sempre uma decisão tomada com sofrimento e perda da prestígio e de poder.


Normas nas relações de parentesco

1) Não existe distinção para indicar o sexo, excepto no termo “pai” (oté) e “mãe” (onsún). Existe um termo único para marido e mulher (osoni).

2) Os irmãos e as irmãs distinguem-se unicamente pela idade, sendo o mais velho e o mais novo.

3) Os filhos e as filhas são chamados okpé, sem qualquer distinção de idade ou sexo.

4) Os parentes pelo lado materno sâo os mais importantes, sobretudo para os protegerem e apoiarem nas suas obrigações cerimoniais. Em caso de morte, todos os bens móveis, em geral escassos, são tomados pelos membros do clã materno da pessoa falecida. Para as mulheres a irmã da mãe é a pessoa mais importante, em vez do irmão da mãe.

5) Para um indivíduo, todos os irmãos e irmãs pelo lado materno são os seus verdadeiros irmãos e irmãs, tornando-se os filhos deles seus próprios filhos também. Alguns fazem distinção entre os filhos dos irmãos e os filhos das irmãs. Pelo lado paterno, o irmão do pai também é considerado como pai e a irmã considerada também mãe. Os filhos da irmã do pai de uma pessoa tornam-se pai ou mãe deste e os filhos do irmão tornam-se seus filhos ou irmãos. Os irmãos pelo lado paterno são designados pelo termo katiakén e os irmãos por linha materna, otorénh, que significa “alguém com quem partilho a mesma mãe”.

 
Os Chefes das Tabancas

 Voltar aos "Bijagós"                                                                                               Voltar á Homepage