A VIDA DIÁRIA DOS BIJAGÓS


(tomado da "Etnologia dos Bijagós da Ilha de Bubaque (1978)",
escrito pelo pesquisador da antropologia, Luigi Scantamburlo)

 
 

Os tipos de casa e o seu equipamento

A arquitectura bijagó foi grandemente afectada pela presença da arquitectura portuguesa. Isto é notório na mudança da configuração das casas (mesmo nas novas cabanas sagradas), de uma forma redonda para quadrada ou rectangular. Eles explicam que o modelo rectangular permite um maior espaço interno utilizável.

Também aprenderam a fabricar tijolos secos ao sol e a usar um tipo de palmeira (p. Cibe, Borassus aethiopum), para a armação das vigas e traves do tecto.

Tradicionalmente, no entanto, as casas eram redondas, com paredes de lama seca e telhados de colmo com a armação em bambu, que cresce em abundância na maior parte das ilhas do arquipélago.

Duas a três semanas são geralmente necessárias para construir uma casa, que exige a cooperação de um largo grupo de pessoas, para que o trabalho seja feito o mais rápido possível. É suposto haver tarefas diferentes para homens e mulheres, embora hoje esta regra seja raramente mantida.

Tradicionalmente as mulheres eram as principais construtoras das casas, encarregadas do transporte da água, da preparação da lama vermelha, do erigir das paredes, do cortar e entrançar da palha do tecto e do endurecer e nivelar do chão com areia e lama. Os homens tinham de preparar as armações de vigas e as outras traves para sustentar o tecto e fornecerem às mulheres a corda feita com tiras das folhas de palmeira e cobrirem o telhado. O dono da casa tem a responsabilidade de abastecer os trabalhadores de arroz e peixe, bem como de vinho abundante e tabaco.

A casa usada para as cerimónias sagradas tem a mesma forma redonda e dimensão das outras. Há duas entradas, sem portas, e as paredes internas e externas estão pintadas com desenhos geométricos e mitológicos. Os construtores das cabanas sagradas, são todas as mulheres casadas e raparigas adolescentes, ajudadas por jovens adultos que apenas realizaram algumas das cerimónias de iniciação e que fornecem a armação para o telhado e a sua cobertura.

De acordo com as diferentes cerimónias religiosas realizadas e com o direito de propriedade, a tabanca pode ter os seguintes tipos de casas sagradas:

a) A kandjá kamotó - É a casa sagrada mais importante, destinada aos ancestrais do clã, a que pertence a tabanca. Está sob a responsabilidade do chefe, que escolhe uma mulher mais velha para okinka, para manter vivo o fogo sagrado e cuidar das cerimónias religiosas das mulheres.

b) A kandjá kaorebok – É onde tem lugar a maior parte das cerimónias referentes às mulheres, sob a responsabilidade directa do homem escolhido pela tabanca para participar nalgumas delas (B. orase) e nas da sua esposa. E a única casa sagrada que se encontra em todas as tabancas bijagós.

c) A kandjá eramunde - É a casa sagrada de um espírito especial, muitas vezes cedido por outros grupos étnicos, devido ao seu poder de protecção contra a doença e aumento da fertilidade. Difere das outras casas sagradas porque é propriedade privada.

d) A kandjá kaunikan - É onde reside o espírito Orébok mais antigo da ilha. Nenhuma cerimónia de iniciação pode começar sem um sacrifício a este espírito, chamado também "o espírito da verdade".

Todas as casas da tabanca têm de ser consagradas com cerimónias apropriadas.


Os objectos quotidianos da cultura bijagó

a) Os objectos femininos
Os principais são as roupas, sobretudo as saias tradicionais feitas de palha. Há modelos diferentes para as mulheres casadas, raparigas adolescentes e anciãs, que vestem sempre saias de uma só cor, geralmente vermelha. As saias são tingidas de vermelho, preto e branco, com diferentes desenhos, segundo as ilhas. O material usado na sua confecção é uma fibra obtida dos ramos de algumas árvores e arbustos.

Outros elementos essenciais do vestuário feminino são os lenços para a cabeça e uma corrente de conchas que enrolam à volta da cintura.

Na ilha Bubaque, as mulheres usam ainda o fato tradicional, excepto quando vão para o centro administrativo da ilha ou para a escola, onde já não é permitido usá-lo. Embora as roupas europeias e os tecidos modernos sejam ainda raros para a família média bijagó, parece que o desejo de continuar a usar o trajo tradicional prevalece sobre o de poupar o dinheiro, além de estar mais relacionado com o seu apego ao modo de vida tradicional.

Nalgumas tabancas da ilha Formosa, por exemplo, é vulgar ver todas as mulheres e raparigas, exceptuando as mais velhas, usarem roupas europeias. Nalgumas tabancas encontrei uma menor preocupação com os modos de vida tradicionais que noutras da mesma ilha.

Os outros objectos femininos estão relacionados com o pilar do arroz, o cozinhar e as actividades importantes da sementeira. As mães têm também um cesto pequeno onde guardam a garrafa com o óleo de palma usado para untar o seu bebé. A maioria das mulheres mais velhas fuma cachimbo ou snifa tabaco.

b) Os objectos masculinos
O vestuário tradicional dos homens é uma tanga de pele de cabra, vaca ou outro animal selvagem, como e gazela ou a cabra-do-mato. Actualmente só é utilizado durante o período de iniciação. Para as outras ocasiões o vestuário é de fabrico europeu. Outros dois elementos essenciais simbolizando riqueza e prestígio são respectivamente o chapéu (B. kunkpónt) e o cobertor (B. kapokate), usado como capa quando se deslocam de una aldeia para outra, e pode ser adquirido no mercado europeu. No entanto, quase todos os homens estão a substituir as roupas tradicionais pelas europeias. Usam camisa e calças, a não ser quando estão a trabalhar na agricultura ou a subir às árvores.

Os objectos mais comuns do homem bijagó são os que estão relacionados com a importante actividade de subida às palmeiras. São uma corda utilizada como cinto e feita de uma grande folha de palmeira, um pequeno escopro com a forma de machado para cortar os frutos da palmeira e um outro pequeno escopro para fazer um buraco no pedúnculo do cacho. O vinho de palma corre deste buraco para uma cabaça ou para uma garrafa de vidro.

Todos os homens bijagós usam também, presa ao cinto, uma bainha em couro com uma grande faca afiada. Quando viajam levam um saco, geralmente feito de canas, contendo um chifre de vaca, por onde bebem, uma garrafa de vinho, um cachimbo; alguns objectos religiosos e por vezes a tradicional pederneira, actualmente substituída pelos fósforos normais.


A cozinha tradicional

A base da alimentação é o arroz, o óleo de palma e o peixe. Ouvi alguns dos mais velhos queixarem-se da tendência actual das suas esposas para exigirem só arroz nos seus cozinhados diários. No passado o arroz também era o alimento principal, mas não de todos os dias, pois alternava-se com feijão, amendoins bambara, amendoins europeus e manfafa.

O lugar para cozinhar é construído sempre na varanda da casa; com três pedras redondas que seguram a panela ou a caçarola.

A refeição de peixe mais vulgar é cozido, esmagado e misturado com sumo de limão, pimenta vermelha e o óleo de palma. Quando acompanhado de arroz, constitui o prato mais comum dos Bijagós.

O pimento picante tão exaltado pelos viajantes europeus dos séculos XVI-XVIII, é usado em quantidade em quase todos os pratos. Tal como as outras etnias da Guiné-Bissau, comem macaco e muitos animais pequenos e pássaros que se encontrem nas ilhas, mas não comem cobras, abutres ou qualquer espécie de insectos.

 
A Familia dos Bijagós

 Voltar aos "Bijagós"                                                                                               Voltar á Homepage