A VIDA ECONÓMICA DOS BIJAGÓS


(tomado da "Etnologia dos Bijagós da Ilha de Bubaque (1978)",
escrito pelo pesquisador da antropologia, Luigi Scantamburlo)

 
 

A Vida Economica (na Ilha de Bubaque)

Os anciãos bijagós estão de acordo num ponto: a vida era melhor e muito mais fácil antes da chegada dos europeus. "Quando nós éramos novos", ter-me-iam dito alguns, "tínhamos muito mais comida que agora, a floresta era rica em frutos e o mar em peixe e moluscos. Os mais velhos não precisavam de trabalhar como agora, porque os seus filhos forneciam-lhes diariamente os alimentos."

De facto, o meio ambiente da ilha é bastante generoso para quem vive numa base económica de subsistência, sendo as actividades principais as seguintes:

a) As culturas primárias, o arroz e outras culturas secundárias, como os amendoins, o milho, o feijão, o inhame, a mandioca e a abóbora;
b) A extracção do óleo de palma;
c) A criação do animais domésticos, vacas, cabras, carneiros, porcos e galinhas;
d) A pesca feita pelos homens com rede, anzóis e arpão.

Quando a maré desce fica uma extensão da costa coberta de inúmeras ostras, amêijoas e longueirões, recolhidos depois pelas mulheres.

Tecnicamente, os Bijagós são agricultores e passam a maior parte do tempo, entre Abril e Dezembro, no trabalho do campo e os restantes meses na pesca, na reparação da casa e na realização das cerimónias.


Métodos agrícolas

O povo bijagó usa a técnica do corte e da queimada, com uma rotação da terra utilizada no cultivo do arroz, de cinco a sete anos. Todas as famílias da tabanca se reúnem em Fevereiro e decidem qual a terra a cultivar, dividindo-a segundo as suas necessidades. Embora muitas delas possuam campos para o cultivo do arroz do irrigação, o principal trabalho agrícola é feito com o arroz de sequeiro. A terra tem de ser preparada durante Abril e Maio, precisamente antes das primeiras chuvas, que geralmente caem na segunda quinzena do Maio. Os homens cortam o mato e queimam-no. As mulheres semeiam, mondam, defendem as culturas dos macacos e dos pássaros e por fim fazem as colheitas.

O corte do mato, a monda e a ceifa são feitos por grandes grupos de pessoas, que trabalham conjuntamente nos campos uns dos outros. O único pagamento é o fornecimento da comida durante o dia, com vinho de palma em abundância e tabaco. Aqueles que são abastados e possuem bastante arroz preparam geralmente os maiores e melhores campos.

Toda a mulher casada tem uma parcela grande de terreno com arroz para os seus filhos e as raparigas solteiras têm uma mais pequena, próxima da das suas mães, com o arroz que irá ser utilizado nas cerimónias religiosas e nas festas com as suas companheiras.

Nos arrozais, geralmente na periferia, os Bijagós podem plantar milho, milho preto, painço, melancia, abóbora-menina, inhame ou abóbora, mas só pequenas quantidades, para satisfazer as necessidades da família ou pelo simples prazer de experimentarem novas culturas. O cultivo do arroz de sequeiro é uma tarefa árdua e não compensatória, que obriga as mulheres e as crianças a passarem o dia inteiro no campo, defendendo as culturas dos pássaros e do, macacos.

A colheita, dependendo quase exclusivamente da regularidade das chuvas e da qualidade do terreno, raramente é suficiente para todo o ano. Isto origina o recurso ao arroz vendido pelo Governo no mercado local em Bubaque, que em geral também escasseia bastante. De Agosto a Outubro a sobrevivência é também garantida através da extracção do óleo de palma, dos moluscos que se encontram ao longo da praia perto dos terrenos cultivados e do fruto do mangal, os egbá (Avicennia germinans).

Nos arredores da tabanca encontra-se a terra desbravada para as culturas secundárias, sobretudo o amendoim, a batata-doce, e mandioca e o feijão. Podem crescer todos os anos na mesma parcela, por rotação, sem muitos fertilizantes, excepto a queimada, que faz germinar as sementes do ano anterior. Semear ou plantar é sempre tarefa das mulheres, embora o contacto com os europeus tenha influenciado também os homens ne semeadur e cultivo dos produtos secundários.

Os amendoins e os feijões, juntamente com o óleo de palma e as aves domésticas, são os meios usuais para adquirir o dinheiro necessário à compra de roupas e pagamento das taxas anuais governamentais. Actualmente, devido à influência portuguesa, os Bijagós cultivam o amendoim "europeu" normal, mas em tempos antigos cultivavam somente a chamada mancara bidjugu (Bambara groundnuts), com um sabor semelhante ao das favas.


O óleo da palma

A maior parte do território da ilha de Bubaque é coberta de palmeiras de óleo (Elaeis guineensis), cuja plantação foi encorajada pelo governo colonial. Há uma fábrica local com uma larga produção de óleo de palma para exportação. Contudo, as palmeiras não foram bem plantadas porque crescem entre árvores selvagens. Muitas vezes são danificadas pela técnica do corte e queimada usada no cultivo do arroz.

As palmeiras de óleo servem dois importantes objectivos na economia bijagó. Um deles é o fornecimento do vinho usado coma uma bebida alcoólica normal e barata para as cerimónias religiosas, ofertas e festas, e é obtido pelo sangrar do pedúnculo do cacho de frutos ainda verdes. Uma boa palmeira pode produzir diariamente cerca de um litro de vinho durante dez a quinze dias. O melhor vinho é extraído durante a estação seca, entre Novembro e Maio. É na altura em que se celebram a maior parte das festas e são feitos os trabalhos mais importantes, tais como a construção das casas e a preparação dos arrozais.

O outro é o fornecimento de um óleo avermelhado usado em quase todos os pratos da cozinha bijagó. É usado não só para cozinhar mas também para untar o corpo e o cabelo e por vezes até para fins religiosos.


A criação de animais domésticos

Os mais importantes são as cabras, os carneiros, os porcos e o gado bovino, mas também se dedicam à criação de aves (galinhas, patos e galinhas-do-mato). O gado bovino é escasso na ilha de Bubaque devido à pobreza dos prados e sobretudo porque o administrador português obrigava os seus donos a abastecerem o mercado local de carne, pelo menos uma a duas vezes por semana. Os Bijagós só matam o gado nas cerimónias religiosas que requerem o sangue de uma vaca ou do um boi.

Os porcos, as cabras e as aves são numerosos, deambulam livremente por volta da tabanca e são marcados por um sinal que somente o dono pode identificar. Nalgumas tabancas, onde o roubo de qualquer animal é incentivado e muitas vezes impune; as pessoas devem vigiá-los atentamente. No passado era suficiente amaldiçoar o ladrão para se conseguir recuperar o gado ou pelo menos descobrir o seu paradeiro.

Os porcos são geralmente utilizados nas cerimónias religiosas das mulheres, embora também possam ser vendidos a dinheiro.

As galinhas são necessárias porque nenhuma cerimónia pode começar sem a morte de, pelo menos, uma delas, não importando que seja nova, no caso de não haver mais nenhuma disponível.


A pesca, a caça e recolha

O peixe é abundante no oceano e na costa. Algumas actividades piscatórias como, por exemplo, a pesca no mar alto dizem respeito exclusivamente aos homens, enquanto às mulheres compete recolher os moluscos e os longueirões das praias.

As actividades da pesca podem ter por fim a obtenção de dinheiro, quando uma tabanca ou um grupo de pessoas consegue uma canoa e uma rede.

A caça na ilha de Bubaque, exceptuando os macacos, lagartos pequenos, patos e pombos, está em extinção, devido ao desaparecimento de algumas espécies animais que ainda se podem encontrar noutras ilhas (cabra-do-mato, gazela e hipopótamo). Utilizam-se lanças e armadilhas, pois poucas pessoas podem comprar armas de fogo.

Embora os mais velhos possam recordar a utilização do arco e da flecha, hoje em dia esta arma já não se encontra em lado nenhum, a não ser como arma simbólica nalgumas cerimónias religiosas ou como brinquedo para as crianças.

As mulheres bijagós têm o encargo de preparar diariamente a comida da famí1ia e, tal como noutras sociedades da África Ocidental, providenciam a maior parte dos alimentos necessários. De manhã, uma delas vai à praia recolher moluscos, longueirões ou ostras e ao mato procurar alguns inhames selvagens ou frutos da época. Um dos frutos mais importantes colhidos durante o mês de Outubro é o chamado egbá (Outubro é um mês crítico, pois todas as reservas alimentares estão esgotadas e as novas culturas não amadurecidas) extraído do mangal, de família das Avicenna (Avicennia germinanas nitida), cuja medeia desempenha um papel essencial para a consagração de alguns dos objectos religiosos mais importantes.

 
A Vida Diária dos Bijagós

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