A PERSONALIDADE DOS BIJAGÓS


(tomado da "Etnologia dos Bijagós da Ilha de Bubaque (1978)",
escrito pelo pesquisador da antropologia, Luigi Scantamburlo)

 
 

CONCLUSÃO

O meio dos Bijagós aparenta ter sido não só rico mas também privilegiado. A horticultura, a pesca e as palmeiras de óleo forneciam-lhes uma provisão adequada de alimentos sem exigir um trabalho intenso e uma tecnologia desenvolvida.

A estrutura social da tabanca é hierarquizada, mas a sua dimensão reduzida dá a todos a oportunidade de se relacionarem de uma forma amigável.

As cerimónias do Dufuntu reforcaram a importância do clã matrilinear, que de outra forma teria sido reduzido a uma estrutura nominal, devido ao poder económico ser dominado pelos homens e proveniente do cultivo do arroz de sequeiro. Um novo respeito pelas mulheres foi crescendo entre os Bijagós. Nos últimos dez anos, um respeito semelhante e um novo papel para as mulheres fui desenvolvido pelo partido dirigente, o PAIGC, iniciado já durante a luta de libertação da Guiné-Bissau.

A rotação das actividades do ano está centrada no cultivo do arroz. Dois terços do ano são passados no campo, que é depois abandonado por cinco a sete anos, para permitir a reciclagem da floresta. Na ilha de Bubaque, onde mais terra foi ocupada pelas estruturas administrativa e turística governamentais, o povo tem menos terreno para cultivar. Além disso, os novos factores criados pela escolarização e pelas tarefas exigidas pela indústria turística estão a afectar seriamente o modo tradicional da vida dos Bijagós, que até aqui têm sido os grandes perdedores.

Em poucos anos, todos os jovens da ilha estarão escolarizados e menos dispostos a adaptarem-se no sistema de grupos etários da tabanca tradicional. Como professores ou trabalhadores assalariados adquirirão a independência económica numa idade mais jovem que os seus colegas que estão ainda a viver na tabanca. Não desistirão facilmente do seu salário em favor dos mais velhos.

Até agora, todos tiveram de realizar as cerimónias de iniciação de uma determinada maneira. Em muitas ocasiões, os relutantes foram levados à força para a floresta. No futuro, os mais velhos terão menos poder para impor as regras tradicionais, devido à nova liberdade concedida a todos pelo Governo. A estrutura tradicional da tabanca ficará enfraquecida. Os mais velhos não irão receber o abastecimento alimentar garantido pelo sistema de níveis etários, como até agora. Sozinhos na tabanca, sentem-se frustrados porque já têm menos para oferecer aos jovens que são atraídos por outros estilos de vida e estão envolvidos em sistemas económicos diferentes. Os jovens, contudo, não podem ser censurados pela sua recusa em aceitar as estruturas socioeconómicas tradicionais. É a nova situação que reduz a produtividade da terra e aumenta o orçamento da família que está agora comprometida com muito mais do que exigências alimentares e deveres cerimoniais.

É provável que o povo em Bubaque adopte estruturas económicas mais desenvolvidas, tais como a pesca ou o cultivo intensivo de frutos e a escultura da madeira, que são mais rentáveis que a cultura do arroz de sequeiro. O povo bijagó, contudo, ainda resiste à mudança devido à insuficiência de abastecimento do arroz. Muitas vezes têm o dinheiro, mas não podem comprar alimentos porque não existem à venda nos armazéns. A auto-suficiência na produção do arroz perdeu-se em Bubaque.


A personalidade do povo bijagó

A estrutura social autónoma da tabanca e o meio ambiente relativamente rico do arquipélago encorajaram um espírito de independência no povo bijagó. Acreditam na livre iniciativa e resistiram às pressões coloniais, opondo-lhes o seu estilo independente. Alguns administradores coloniais rotularam-nos de povo preguiçoso, não disposto a empreender una trabalho árduo. Este juízo, contudo, não dá uma imagem verdadeira da sua atitude para com o trabalho.

Quando o abastecimento de comida é abundante, os Bijagós preferem entregar-se a festas, obrigações cerimoniais e acções de graça aos espíritos da tabanca. Contudo, se é exigido una trabalho duro para qualquer necessidade específica da tabanca, eles são capazes de juntar as suas forças e fazê-lo. O que parece necessitarem é de uma forte liderança que lhes mostre as vantagens da tarefa a desempenhar. É difícil encontrar bijagós que desenvolvem algumas iniciativas individuais. Realizam a maior parte do seu trabalho em comunidade.

Todos os elementos da tabanca são iguais. Os Bijagós nunca suportarão a presença de quem se coloque por cima dos outros, devido às suas ambições ou boa sorte. Sentem que isso gera um sentimento de inferioridade entre os outros habitantes. Se alguém possui mais do que os outros, deve repartir o seu excedente ou acarretar com mais responsabilidades durante as cerimónias na tabanca. Ninguém ousa recusar comida a quem tenha fome ou qualquer ajuda que possa proporcionar àqueles que venham até ele. Uma tal recusa seria considerada a culpa moral mais grave. Para eles, quer o miserável quer o poderoso pertencem ao mundo da feitiçaria e não ao mundo do quotidiano.

Chegando a uma tabanca, ficamos impressionados com a atmosfera de felicidade e cordialidade gerada à nossa volta. A hospitalidade é um traço predominante dos Bijagós. Muitas vezes dão a melhor comida e a melhor cama aos seus hóspedes.

No seu contacto com não familiares e estranhos são tímidos e não pedem comida a não ser que forem convidados a partilhar uma refeição. Com amigos e parentes, contudo, são espontâneos, dedicados e generosos. A amizade para eles é uma dádiva de Deus, mais preciosa que uma esposa ou um filho. Para um amigo falarão de uma forma como nunca o fariam para uma esposa e têm a certeza de que este guardará qualquer segredo. Numa sociedade onde os acordos são respeitados - não com contratos escritos mas com a concordância secreta feita perante a tabanca e os espíritos da família - cada um pode compreender como é importante que esta amizade seja sagrada.

Uma coisa que qualquer bijagó sempre teme até ao dia em que morre, é ser envergonhado perante a tabanca. Ficam indefesos e feridos psicologicamente quando criticados pelos outros. Alguns informadores disseram-me que, no passado, a perda da boa reputação pública constituiria motivo suficiente para uma pessoa cometer suicídio. As pessoas tentam tudo para obter de novo a dignidade perdida.

Evitam cuidadosamente criticar outras pessoas, para que lhes possa ser concedido o mesmo tratamento. Um dos seus desejos comuns é terem uma boa reputação, encontrarem gente sincera com quem se relacionem e estarem protegidos das maldições secretas e das invejas.


O “Etute”

O Etute é um lugar sagrado onde os velhos se reúnem em circunstâncias relacionadas com a troca de presentes. Os jovens da tabanca devem muitas vezes oferecer o produto do seu trabalho aos mais velhos. É a forma para aprender as tradições e ser considerado como um elemento bom.

Repartir os bens e respeitar os velhos são as duas normas que todos os Bijagós devem aprovar. Embora aconteça raramente na situação actual de Bubaque, parecem ser as características que o povo bijagó deseja conservar na tabanca. Nas suas histórias passadas, os mais afortunados dividiam o que tinham com os mais velhos.

Quando o Dufuntu anda de tabanca em tabanca, um dos seus objectivos é pedir oferta às pessoas que encontra. É considerado incorrecto e traz má sorte recusar a dádiva de alguma coisa. Há uma história que o povo conta que reflecte o significado das actividades do Dufuntu:

Uma vez o Dufuntu viu um homem sentado em frente da sua casa com alguns cachos de chabéu. Como habitualmente, o Dufuntu pediu-lhe para partilhar os frutos. O homem, no entanto, recusou alegando que não tinha nada para dividir, pois já tinha uma esposa para sustentar. O Dufuntu retorquiu: - Porque é que repartes só com a tua mulher? Não somos todos irmãos e irmãs na tabanca?

Através dos séculos, a cultura e a tabanca bijagós só puderem sobreviver devido à transmissão das suas normas de uma geração para outra.

Para uma mentalidade moderna, eles parecem insensatamente fiéis às suas tradições antiquadas. Olham para o passado, contudo, não por respeito às tradições mas porque aprenderam que a tabanca pode sobreviver se os membros sâo de acordo com as mesmas normas. Alguns chefes opuseram-se às escolas modernas durante o colonialismo não devido à sua incapacidade para compreenderem as vantagens da instrução, mas sim devido às inúmeras pessoas que a escolarização rouba ao trabalho comunitário da tabanca. A educação nas mãos de professores que eram opositores das tradições bijagós, prepararia as crianças para constituírem uma ajuda insignificante pela tabanca.

Esta mesma atitude de resistência foi adoptada contra o cristianismo. Os Bijagós evitaram diálogos sérios e responsáveis com os representantes cristãos, embora mantivessem com eles relações amistosas, porque as pessoas baptizadas revelavam pouco respeito pelas suas antigas tradições.

O povo bijagó mudou no passado e continua a mudar. Contudo, qualquer nova política deve ganhar a lealdade dos mais velhos. As novas leis devem respeitar as normas e a estrutura da tabanca; de outra forma os Bijagós resistirão, tal como se opuseram à ingenuidade do poder colonial que os obrigava a tornarem-se cidadãos portugueses.

Na actual situação, o povo bijagó correrá perigo. A sua cultura está em risco de ser completamente destruída.

 
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